Artigos (por Carlos Ramalhete)

Embate de civilizações?

Falam muito de que estaria ocorrendo hoje em dia uma polarização entre o Ocidente Cristão – representado pelos EUA – e o Islã. Em minha modestésima opinião, o que está acontecendo é uma polarização entre duas falsas verdades. Os EUA decisivamente não são mais os mesmos; recebi ontem mesmo uma msg de amigos que pensam em vir morar no Brasil mas estão com medo de serem presos no aeroporto, já que um amigo deles foi revistado de maneira constrangedora apenas por estar indo para a Alemanha e morar perto do Canadá (ambos países que por não apoiárem a guerra são considerados “terrorist-friendly”; a relação americano-canadense está em seu ponto mais baixo de sua história, com apoio aberto e direto dos EUA a movimentos separatistas, etc). Eles têm medo de serem detidos se for sabido que não apenas moram (bem mais) perto do Canadá mas querem se mudar para o Brasil. Do mesmo modo, os sonhos de imposição de democracia à força no Iraque são completamente contrários ao comportamento tradicional americano, sempre hesitante e precisando de pedidos urgentes dos cidadãos para entrar em uma guerra.

Assim, o lado controlado pelos EUA está agindo de forma nova: é uma nova face da Revolução, não é mais sequer o velho “American way of life” já tão daninho.

Contra este Leviatã que se alevanta (os próprios americanos estão orgulhosamente chamando os EUA de Leviatã mundial, em alusão ao livro de Hobbes), todos os velhos sem-vergonha das etapas anteriores da Revolução estão se aliando.

Temos assim por um lado a união de nazistas, comunistas, islamistas e outros “istas” desagradáveis contra o neo-leviatanismo americano igualmente anti-católico que quer impor sua “democracia” (leia-se aborto, ecochatice politicamente correta, protestantismo, etc.). A escolha é falsa: ambas as opções são más. Os americanos estão achando que esta é a Guerra de Luz e Trevas, mas na verdade está mais perto de Gog e Magog. O gnosticismo dualista protestante da liderança americana atual chega a assustar, se querem minha opinião.

Há porém um lado bom nisso, se pensarmos em termos mais amplos:

Ambos os lados estão aparentemente defendendo a herança das “Luzes”, mas ambos estão já afastadíssimos das formas de ação (nisso Marx tinha razão: a prática sempre muda antes da teoria) modernas. A “coalisão dos que toparem” (“coalition of the willing”) americana afirma agir em nome de um Estado moderno (aliás d’O Estado Moderno: os EUA foram o único país em que a idéia nacional e a organização política preexistiram à nacionalidade) e estar atacando outro Estado moderno. Na verdade o ataque é – ao menos nas razões apresentadas publicamente pelos EUA – a uma ONG (Al Qaida), e dirigido por outras ONGs (os “think-tanks” e as corporações americanas). Já é uma falência, uma visão caricatural da modernidade, como o Império de Napoleão era uma caricatura do Ancien Régime. É já o fim deste regime, graças ao bom Deus.

Além disso, a tática empregada pelos americanos só tem como sair pela culatra, por uma razão simples: quanto mais se tenta impor artificialmente uma “ordem” (no modelo fascista, ou seja, um generalão que comanda diretamente os soldados sem qualquer reconhecimento de hierarquias intermediárias que não como representantes do poder máximo), mais rapidamente surgem respostas a esta “ordem”. É como tentar apertar um balão de festinha de aniversário: quanto mais se aperta em um lado, mais infla do outro.

Isto ocorre devido à entropia, princípio natural que determina que um sistema fechado tende ao caos. A sociedade ordenada de acordo com os princípios da Doutrina Social da Igreja, por não procurar impor ordem maior (ou mesmo contrária, como no caso americano atual) que um mero reconhecimento e oficialização das hierarquias naturais de uma sociedade (reconhecendo a elite existente ao invés de procurar fazer todos serem iguais, por exemplo), ajudada pela graça de Deus, pode minimizar ao ponto do quase aniquilamento esta tendência à dissolução.

Agora, porém, está a acontecer o oposto diametral do que a Igreja prega: ocorre hoje uma progressiva retomada do poder do Estado agonizante, uma versão caricaturalmente ampliada do que ocorreu no segundo quarto do século passado. Lula aqui, Chávez acolá, Bush pelo mundo todo, etc., têm o mesmo cheiro do mundo nos anos 1930. A diferença é que desta feita não só o Estado tenta controlar e microgerenciar ainda mais a sociedade (posto que o microgerenciamento só fez crescer de lá para cá, fazendo crescer simultaneamente a anomia), como tem meios mais eficientes (computadores, etc.) para fazê-lo. Isto é um estertor da Modernidade que agoniza, e é no mínimo tão revolucionário unir-se aos americanos quanto à coalisão de idiotas que estão contra eles.

Ambos os lados são caricaturas da Modernidade, ambos os lados são uma versão exagerada das etapas anteriores da Revolução; dentre os dois, contudo, os EUA estão um passo mais à frente, mas é um passo que só pode levar à auto-destruição.

Podemos comparar a situação hodierna com a européia na época das Guerras de Religião. Naquele tempo, o recém-surgido “lado protestante” pregava uma idéia nova, que ia contra tudo o que constituía a sociedade de então. Eles criaram Estados no sentido moderno, unidos em torno da falsa religião protestante como seu princípio constituinte. São os antepassados diretos dos Estados nacionais.

Surgiu então um “lado católico” para combatê-lo, aceitando porém tacitamente o princípio revolucionário e até então impensável de que a religião do Estado é a religião do Rei. A guerra, assim, passa a ser entre Estados católicos e protestantes. Não é mais questão de expurgar o erro, sim de expandir o domínio católico. Muita gente boa entrou nesta barca furada, sem perceber que com isso estava na verdade dando força à Revolução ao aceitar a premissa implícita.

Estas guerras fortaleceram e solidificaram o poder dos Estados (naquela época ainda particulares, ou seja, monárquicos; isso criou o Absolutismo) até que estes ficassem tão grandes que o Rei não bastaria. O lado protestante, por absoluta falta de coerência religiosa interna, foi o primeiro a desabar. Formou-se assim o Estado moderno, em que o governo da coisa pública não é mais particular, sim “público” (ou seja, não há mais um Rei que é dono do Estado, sim um encarregado temporário agindo em nome do “povo”). O relativismo passa a reinar, os Parlamentos decidem o que é certo, etc. Este modelo protestante está na origem do modelo americano (é comum esquecer que a Revolução americana antedata a francesa).

Já o lado católico foi apertando mais e mais as rédeas do poder absoluto na mão do Rei, ignorando cada vez mais as instâncias intermediárias de poder, etc. O triste resultado foi a Revolução Francesa: do Rei o poder absoluto passou à Assembléia.

Estamos agora em situação parecida: o surgimento da ação política não-estatal (inclusive guerreira: é o terrorismo), decorrência necessária da constrição excessiva da sociedade pelo microgerenciamento estatal moderno, levou a uma reação que, em nome da ordem anterior, assume premissas totalmente contrárias ao que pretende defender.

Assim como os Reis católicos assumiram inadvertidamente a premissa de que é a religião do rei que determina a do país (com se fosse lícito que um Rei herege levasse um país à heresia! Como se o problema fosse a heresia *do Rei*!), criando assim as condições para o absolutismo (que por sua vez levou *necessariamente* à Revolução Francesa), os americanos assumiram inadvertidamente a premissa da aceitabilidade (ou até necessidade!) da ação desordenada, sem justificação ética alguma que não a capacidade de fazê-lo (ou uma mera “malvadeza” do inimigo). Isso cria condições para o totalitarismo que está começando a grassar nas terras do Norte (que por sua vez conduz à anomia); em busca de extirpar a ação guerreira não-estatal que é contrária às premissas da Modernidade, os EUA estão violando estas mesmíssimas premissas e abrindo caminho para a anomia ultra-revolucionária.

Isto tem um lado bom: a ausência de ordem artificialmente imposta conduz à emergência de autoridades e elites naturais (como ocorreu no Medievo em decorrência da queda do Império Romano). O lado ruim, porém, é a permanente tentação de tomar partido na briga do Tiço com o Coisa-Ruim sem se dar conta das premissas implícitas nas posturas de ambos os lados.

Vale ter em mente o exemplo ibérico, aliás. A Península Ibérica nunca teve guerras de religião por uma razão simples: em momento algum os íberos aceitaram as falsas premissas que norteavam aquelas guerras. Heresia era caso de Inquisição, não de política. De cruzada, não de guerra.

Do mesmo modo, não temos nada que defender (ou atacar!) Estados hoje em dia. Devemos, sim, procurar fortalecer as autoridades naturais locais (do pai de família, da associação de bairro, etc.). Os Estados subiram tão alto à estratosfera que estão explodindo como balões. Temos é que juntar os cacos dos que eles deixaram aqui no chão e procurar lutar contra a anomia que está chegando (já chegou no Rio, já chegou na Argentina…).

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