Espaço do Leitor Respostas a Leitores (por Carlos Ramalhete)

Falácia desarmamentista

Chegou-me às mãos a seguinte afirmação, infelizmente comum entre os que engolem as besteiras ditas pelos Viva-Rio da vida:

“- O porte de armas não é garantia de sua segurança e, na maioria dos casos, aumenta-se a violência.”

Esta afirmação faz sentido à sua maneira, mas é frontalmente contrária à Moral cristã clássica.

Explico agora: a Moral nos ensina que há violência lícita e violência ilícita. A violência ilícita é sempre pecaminosa. A violência lícita pode ser neutra moralmente ou virtuosa. A violência lícita empregada em auto-defesa é virtuosa, na medida em que é uma defesa da vida humana; a violência lícita em defesa de terceiros – especialmente órfãos, viúvas, etc. – é ainda mais virtuosa.

A pseudo-“moral” moderna, porém, não tem Deus como seu último fim (logo não tem a ordenação dos atos a Ele como pedra de toque da sua moralidade). Seu fim último é a conquista total do poder temporal (totalitarismo). Para que seja feita a conquista total do poder temporal, é necessário que a população seja desarmada. Para que a população seja desarmada, inventou-se uma demonização da “violência” que não tenha sua origem no Estado, de modo a aplicar perfeitamente o conceito moderno de que o Estado deve possuir o monopólio da força.

Assim fez Hitler, assim fez Pol Pot, assim fizeram todos os totalitários. Chesterton, com muita graça, diz que “A maneira de Hitler de defender a independência da família é fazer toda família dependente dele e de seu Estado semi-socialista; a de preservar a autoridade dos pais é ele dizer autoritariamente aos pais o que fazer.” É este mesmo tipo de pensamento anti-católico que dá um estranho sentido à frase de efeito que veio por engano meu à lista.

A “violência”, como um todo, é certamente aumentada quando há uma reação justa e virtuosa da parte de uma vítima. O ladrão, que achava que levaria uma carteira, leva uns tabefes ou um tiro: ao invés de um ato de violência injusta (o roubo) há dois, um injusto e um justo (respectivamente, o roubo e reação). Só que quando há, porém, este preconceito aparentemente supersticioso contra a “violência” (digo “aparentemente” porque para os que o bolaram e propagandeiam ele faz sentido: é um meio para a obtenção de um fim. Ele só é supersticioso para quem engole o discurso sem ver nele um meio para a instalação de um estado totalitário. Para estes é a mais negra superstição, em sua definição mais estrita, a de “crença ou noção sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associadas” – © Houaiss), o que se deve evitar não é a injustiça, mas a “violência” (lícita ou ilícita, pecaminosa ou virtuosa), que se teme “sem base na razão ou no conhecimento”.

Assim, para um supersticioso moderno, é muito melhor que haja injustiça generalizada que reação justa contra ela, por medo de aumentar a “violência”, que em sua superstição ele preza mais que a justiça. É preferível que uma mulher seja estuprada e morta do que que ela reaja e fira ou mate seu injusto agressor; afinal, no primeiro caso havia apenas um ato de violência (o ataque injusto), enquanto no segundo há dois (o ataque injusto e a reação justa e virtuosa).

A primeira metade da frase de efeito também faz sentido, embora seja usada de maneira falaciosa. Afinal, é evidente que ter os meios necessários para defender-se não garante a eficácia completa da defesa, de maneira automática, tal como ter remédios no bolso não torna necessariamente a saúde perfeita, ter comida à mesa não garante que estejamos alimentados, etc. A falácia, no caso, é tratar como conseqüência necessária algo que é apenas condição, e responder a este falso argumento.

A condição para que uma defesa seja eficaz é a disponibilidade de meios adequados. Isto, porém, é apenas uma condição, não o único determinante (em outras palavras: é preciso haver tais meios para que se atinjam os fins, mas a presença de tais meios não é por si só garantia da obtenção dos fins). Assim, usar como argumento contra a providência dos meios a sua inabilidade de garantir os fins (que eles nunca se propuseram a garantir, apenas a possibilitar que seja alcançado, tal como ter dentes não garante a nutrição, apenas a possibilita) é falacioso.

Temos portanto uma falácia seguida de uma superstição, tudo a serviço de uma causa contrária à Moral.


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