Pediram-me que explicasse a hierarquia da Igreja Católica, dando como exemplo a “listinha” Padre – Monsenhor – Bispo – Arcebispo – Cardeal – Papa.

Respondi que:

Na verdade você está tratando de duas coisas diferentes:

Uma é o Sacramento da Ordem, que provoca uma mudança ontológica em quem o recebe, tornando-o capaz de fazer algumas coisas que nós leigos não conseguiríamos jamais fazer, na pessoa de Cristo (transubstanciar pão e vinho no Corpo e Sangue do Senhor, perdoar pecados, etc. – tudo isso é feito na pessoa de Cristo, ou seja, é Cristo quem faz através do ministro humano). O Sacramento da Ordem tem três graus:

1) Diácono – o diaconato é o primeiro grau do Sacramento da Ordem. Diáconos podem: pregar (homilias, retiros, etc.), abençoar, assistir matrimônios, batizar, etc. Na verdade tudo isso pode, em algumas ocasiões, ser feito extraordinariamente por leigos. Qualquer leigo pode, em caso de perigo de vida, batizar, por exemplo. Em algumas regiões, onde não há como um sacerdote chegar (no interior da China comunista, por exemplo), um leigo pode assistir matrimônios, tendo delegação do bispo. Um pai ou um padrinho pode abençoar seus filhos e afilhados. E por aí vai. A diferença é que o diácono é ministro ordinário destas coisas, ou seja, ele pode normalmente fazê-las, enquanto os leigos só em ocasiões especiais (ou, no caso da bênção, apenas sobre os que estão sob sua autoridade).

2) Presbítero – o presbiterato é o segundo grau do Sacramento da Ordem. Um padre (presbítero é o nome grego) pode fazer o que o diácono faz, e também consagrar (transubstanciar pão e vinho no Corpo e Sangue de Cristo) e perdoar pecados (nos Sacramentos da Absolvição e Unção dos Enfermos). Em raríssimos casos, com autorização expressa de Roma, ele pode ordenar outros padres (isto já foi feito bastante nos tempos em que era difícil levar um Bispo até um mosteiro isolado, por exemplo; o superior do mosteiro, mesmo sendo apenas presbítero, podia ordenar sacerdotes)

3) Epíscopo – o episcopado é o terceiro e último grau do Sacramento da Ordem. Um Bispo (epíscopo é Bispo em grego) é alguém que recebeu este Sacramento em sua integridade. Ele pode, além do que o padre e o diácono fazem, ordenar padres e consagrar outros Bispos. Este poder independe do governo da Igreja. Um mau Bispo consegue, contra a vontade do papa, ordenar padres (que estarão automaticamente suspensos, ou seja, estarão cometendo pecado grave se usarem os poderes que receberam, mas conseguirão usá-los) e consagrar Bispos, que estarão também suspensos e excomungados, assim como é excomungado o Bispo que consagra outros Bispos sem mandato da Sé Apostólica.

A outra coisa é a hierarquia do governo da Igreja, que por puro acaso é hoje em geral mais ou menos assemelhada à hierarquia dos graus do Sacramento da Ordem.

O mundo está dividido em áreas autônomas, sujeitas apenas à autoridade papal. Estas áreas são as dioceses, os patriarcados (divididos por sua vez em dioceses; todo o Ocidente pertence ao Patriarcado do Ocidente, que é ocupado pelo Papa, mas há, devido às migrações, fiéis que pertencem a patriarcados orientais vivendo no Ocidente), abadias territoriais, etc.

Estes territórios são governados por Bispos (no caso das abadias, nem sempre; podem ser apenas padres que são abades, como era o caso no Mosteiro de São Bento, no Rio). Eles são divididos em vicariatos, que são em geral governados por padres, e os vicariatos em paróquias, que podem ser governadas por padres ou – se não houver padres disponíveis- por diáconos.

“Monsenhor” é um título puramente honorífico; quem o recebe é um padre (ainda que todo bispo seja automaticamente um Monsenhor). Na verdade existem vários tipos de Monsenhor, mas só uma meia dúzia de aficcionados em Roma sabem direitinho as diferenças. Na prática, não há nenhuma diferença entre um padre qualquer e um monsenhor, a não ser a cor das meias e da franjinha da batina (padre usa pretas, monsenhor usa roxas).

Cardeal significa “dobradiça”. Os Cardeais são, na teoria, os párocos das paróquias de Roma. Hoje em dia eles são todos Bispos, mas é perfeitamente possível um Cardeal ser um diácono ou padre apenas. Os Cardeais, por serem párocos das paróquias de Roma, participam das eleições papais (atualmente há uma idade limite para esta participação; é por isso que nas páginas a que remeti vc vc vai encontrar listas de “cardeais eleitores”).

Um Arcebispo é um Bispo que governa uma Arquidiocese, ou seja, uma diocese especialmente grande, antiga ou importante. Quando um Arcebispo sai de uma Arquidiocese para uma diocese ele continua com o título de Arcebispo; é um título na prática apenas honorífico.

As dioceses normalmente surgem como divisão de uma diocese anterior. A diocese de onde sairam as outras é a diocese metropolitana (por exemplo, Rio de Janeiro), e as outras são sufragâneas (por exemplo, Duque de Caxias e Nova Iguaçu, que são sufragâneas do Rio de Janeiro). O fato de uma diocese ser sufragânea de outra não torna seu bispo inferior ou obrigado a obediência ao metropolita; cada bispo é Sucessor dos Apóstolos em direito próprio, e só precisa obedecer ao papa (e muitíssimos, a maioria mesmo, não obedece nem ao Papa).

A maior parte das dioceses metropolitanas brasileiras mais antigas (Rio, Salvador, Vitória, etc.) são Arquidioceses.

O Papa é o Bispo de Roma. Como Bispo de Roma, ele é o sucessor de São Pedro, Príncipe dos Apóstolos e Vigário de Cristo. Em termos do Sacramento da Ordem, o papa é igual a qualquer outro bispo. Em termos de governo da Igreja, a ele todos devem obediência.

Qualquer homem batizado pode ser eleito Papa. Se um leigo é eleito Papa, ele deve ser ordenado diácono, depois padre, depois Bispo. Em geral isso é feito em três dias sucessivos. Na prática, hoje em dia só são eleitos cardeais, mas talvez ainda surja alguma surpresa. Ótimo, desde que não me elejam. 🙂

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