É difícil discutir sobre qualquer assunto relacionado a doutrina empregada nas igreja católica e protestante, sem que “saiam faíscas”, porquê infelizmente, há certos pontos de discórdia entre ambas que acabam por fazer com que tenhamos que escolher entre uma delas. No entanto, Alexandre, não vejo nenhum ponto doutrinário que impeça a minha alma da salvação.

Exporei meus pontos de vista:

1. Para mim a doutrina católica, que coloca o papa como autoridade superior da igreja, colocando nas suas palavras uma autoridade comparável ou superior a palavra de Deus, acaba abrindo espaço para a falibilidade do homem dentro da doutrina; A lei de Moisés é bem clara, quando diz que pelo testemunho de 2 ou 3 pessoas (e não somente 1) torna-se confiável o testemunho, o que é totalmente negado com o papa, de forma que ao afirmar um determinado assunto como ‘ex cathedra’, ninguém pode contradizê-lo. Infelizmente, o catolicismo vai contra essa lei bíblica.Aliás, Alexandre, gostaria de solicitar a você que, se possível, colocasse no site, caso você encontre disponível, uma cópia do documento ou artigo que define a fé em Maria, pois encontrei em alguns outros sites (católicos, por sinal) a informação que esse foi também uma definição ‘ex cathedra’.

2. Quanto a eucaristia, há um grande problema: Jesus esteve vivo, andando por sobre essa terra antes e depois de ser crucificado. Isso nenhuma das duas doutrinas nega (Graças a Deus). Então, me vem a mente a seguinte pergunta: se de fato, o sacrifício de Cristo é repetido a cada vez que é realizada a Ceia, porquê ele ensinou aos seus discípulos sobre ela ANTES do Calvário? Ora, torna-se incorreta então a afirmação católica, pois caso consideremos essa doutrina, afirmamos que o sacrifício do Calvário, naquela triste noite, JÁ HAVIA SIDO REALIZADO DURANTE A ÚLTIMA CEIA DO SENHOR!!! Trocando em miúdos: Se o sacrifício do SENHOR Jesus no Calvário fosse de fato REPETIDO na Ceia, Ele teria ensinado sobre este DEPOIS da Cruz (se assim fosse, a afirmação católica faria sentido, pois o sacrifício já teria acontecido e poderia ser repetido) e não ANTES da Cruz (o que dá alicerce a doutrina protestante, de modo a SIMBOLIZAR e LEMBRAR a todos os que crêem tanto da Nova Aliança estabelecida quanto do SENHOR Jesus, até que Ele retorne). Assim eu creio.

3. Imagens. Esse é complicado, pois fere um mandamento de Deus, independente da doutrina. Deus foi bem claro em Ex 20.4: “Não FARÁS para ti imagem de escultura, nem semelhança ALGUMA do que há em cima nos céus, nem embaixo da terra, nem nas águas embaixo da terra. NÃO AS ADORARÁS, NEM LHES DARÁS CULTO”. Ok, Alexandre, eu já li no site a resposta de vocês sobre isso, porém, como você me explica, na minha cidade (falo a verdade, não minto), os “Cultos de Louvor a Santo Expedito”? E as impressões de folhetos, geralmente como “AGRADECIMENTO A GRAÇA ALCANÇADA POR SANTO EXPEDITO”? Culto de Louvor é Culto, ou eu estou errado?! E Deus condenou isso, não condenou?!Na Palavra de Deus, aprendemos que Jesus Cristo É o Único Mediador da Nova Aliança entre Deus e os homens (especialmente na Epístola aos Hebreus), além do fato desta só ter sido estabelecida mediante o Seu Precioso Sangue.

Eu creio verdadeiramente na Bíblia, e se ela ensina tanto a católicos quanto a protestantes que Jesus é o MEDIADOR da Nova Aliança, como poderemos discordar disso? Não há necessidade de qualquer outro mediador, senão o Filho, como Sumo Sacerdote, e o Espírito Santo, que habita em nós e por nós intercede (Rm 8.26). Aliás que Jesus Cristo falou bem claramente que nem sequer deveríamos utilizar de vãs repetições quando orássemos, pois o Pai já conhecia as nossas necessidades antes mesmo que pedíssemos! Nem Maria, nem João Batista, nem Agostinho, nem Antônio, mas DEUS, esse sim, nos ouve!

Gostaria também de informar a você, Alexandre, que infelizmente faltam em alguns comentários do site um conhecimento mais profundo sobre o protestantismo atual, como num texto que li afirmando que não conhecíamos os livros de Lutero, e suas opiniões. A Igreja sempre se susteve com base na Palavra de Deus, e não de homens. Lutero, de fato, foi o principal agente da Reforma, porém a mentalidade e os objetivos foram amadurecendo, o que é normal. Caso o que afirmei fosse falso, ainda hoje católicos queimariam protestantes, anabatistas estariam sendo mortos, entre outras atroicidades. Infelizmente, ainda há no site confusão entre evangélicos e seitas, como num artigo que li no site, que falava que certos segmentos aceitavam a Trindade, enquanto outros não.

Sinceramente, o único segmento que eu conheço que não aceita a Trindade são as Testemunhas de Jeová, que é uma seita, cuja bíblia não é idêntica a original; Aliás, eu desafio a você encontrar uma igreja evangélica que não se baseie nas seguintes doutrinas:

*Cremos em toda a Sagrada Escritura (Antigo e Novo Testamento) como infalível Palavra de Deus, inspirada pelo Espírito Santo e autoridade máxima em todas as questões de fé (2 Pe 1.21; 2 Tm 3.16-17).

*Cremos na unidade de Deus o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Ef 4.4-6; Ef 3.15-17).

*Cremos na libertação da culpa, do poder e da condenação, através do sacrifício completo do Filho de Deus que se tornou homem e no poder purificador e remissor do seu sangue derramado na cruz do Calvário (1 Co 6.11; Rm 3.25; Ef 1.7).

*Cremos no batismo como ato de obediência e de testemunho daquilo que ocorreu com uma pessoa no renascimento (Rm 6.3-4).

*Cremos na ressureição corporal de Jesus Cristo e na sua elevação à direita do Pai (Lc 24.36-43; Rm 1.4).

*Cremos na necessidade do renascimento do homem através da Palavra de Deus, vivificada pelo Espírito Santo (Jo 3.5; Ef 5.26; 1 Pe 1.23).

*Cremos que o Espírito Santo habita em todo crente (Rm 8.11).

*Cremos na volta de Jesus Cristo para o arrebatamento da sua Igreja comprada pelo seu sangue e na Sua volta, com a Igreja, em grande poder e glória (1 Ts 4.13-17; 1 Co 15.51-53; Mt 24.30; Zc 14.5b; Jd 14).

*Cremos na ressureição dos mortos e em uma vida eterna para aqueles que pertencem a Cristo (1 Co 15.22,42-43).

*Cremos na eterna perdição de todos os homens que não se entregaram a Jesus Cristo (Jo 3.36; 1 Jo 5.12).

*Cremos no cumprimento da palavra profética e, portanto, na restauração de Israel em nossos dias (2 Pe 1.19; Am 9.11; At 15.14-16).

*Cremos na criação de um novo céu e de uma nova terra, onde tudo estará sujeito a Deus, o Pai (Ap 21.1-8).

Pode pesquisar! As que não forem dessa maneira são, essas sim, heresia pura! Por favor, não confunda protestante com mórmon, nem com testemunha de Jeová, etc. Sou da Igreja Batista Renovada de Guarulhos, e essa doutrina é a base dela também. Por favor, responda (não jogue no lixo, como é prometido na seção de mensagens do site), e evite os “comentários linha a linha” que são feitos geralmente no site, ok?

Que Deus te Abençoe,
Hudson Tavares

 

Meu caro Hudson,

Atendendo ao teu pedido, respondo este teu e-mail sem seguir o estilo mais comum entre os autores do VS, não respondendo, linha a linha, o que você escreveu. No entanto, eu gostaria de comentar todos os teus argumento, e, se eu deixar algum de lado, peço desculpas desde já. Vamos aos pontos levantados.

1. Você começou a tua mensagem criticando o papado, afirmando que o mesmo é falível, e dando a entender que é extremamente arriscado colocarmos a nossa confiança em homens falíveis.Relativamente isto, há dois comentários que eu gostaria de fazer. Primeiramente, esta afirmação só seria coerente se você também rejeitasse a fé na infalibilidade das Escrituras.

Sabe por quê? Pelo fato de as Escrituras Sagradas terem sido escritas por seres humanos. Elas não caíram do céu, prontinhas, escritas pelo próprio Deus, o único infalível em Si mesmo. Muito pelo contrário, Deus quis se servir dos homens para compor os escritos sagrados. É certo que o Espírito Santo os guiava, e isto, para você é garantia da inerrância bíblica.

Ora, caro Hudson, se Deus é poderoso o suficiente para garantir a inerrância bíblica apesar das falhas dos escritores humanos, porque Ele não seria poderoso o suficiente para garantir a infalibilidade papal apesar das limitações dos Papas? O mesmo Espírito por detrás da Bíblia, é o que está por detrás da infalibilidade papal (e de todo o Magistério da Igreja).

Percebe a incoerência do teu ponto de vista? Percebe que, se você aplicar esta tua crítica aos escritores sagrados, então, ninguém pode afirmar, com certeza, que a Bíblia não está corrompida? Percebe que, se, ao contrário, você aplicar a razão de tua fé na Bíblia ao Magistério, então, este é tão confiável quanto aquela?

Ou será que você não acredita que Deus é poderoso o suficiente para garantir que os papas, no uso de Seu Magistério Extraordinário, não errem?

2. Relativamente à eucaristia, reconheço que você fez uma crítica bastante arguta. Foi o ponto mais original da tua mensagem, mas o mesmo revela-se baseado numa falsa noção da doutrina católica.

Antes de entrar no mérito da questão, eu gostaria de apontar que você, mais uma vez, aplicou uma crítica à doutrina católica sem perceber que, aplicada à protestante, a mesma seria ainda mais contundente. Ora, se, para o protestantismo, a “Ceia do Senhor” é uma lembrança do sacrifício de Cristo, então, como explicar que Jesus a tenha instituído antes que tal acontecimento ocorresse? Ninguém se lembra de algo ainda não ocorrido, não é mesmo?

Mas, adentrando o mérito da questão, há um equívoco em tua crítica: o sacrifício eucarístico não é uma repetição do sacrifício do Calvário. Ele é o próprio sacrifício de Cristo que se torna presente nos sacramentos do Pão e do Vinho. Há uma fundamental diferença entre “repetir-se” e “tornar-se presente”.

Assim, quando o Senhor, horas antes do Seu sacrifício cruento, celebrou a primeira Missa, de fato, o sacrifício que iria ocorrer no Calvário já se realizava naquela Ceia. Jesus celebrou três vezes, e de formas diversas, a mesma Páscoa: a Páscoa sacramental (celebrada na Última Ceia), a Páscoa do Sacrifício (celebrada na Cruz), e a da Ressurreição (celebrada ao amanhecer do Domingo). Os três acontecimentos, no fundo e em essência são um único.

Desta forma, a primeira Missa não “repetiu” algo ainda não ocorrido; ela fez presente o sacrifício que iria ocorrer horas depois.

3. Relativamente ao culto aos santos, você está correto ao afirmar que nós cultuamos os que nos precedem no Reino dos Céus. No entanto, caro Hudson, você se equivoca ao afirmar que o culto católico de veneração aos mesmos (dulia) é o mesmíssimo culto proibido por Deus em Ex 20, 4. Neste versículo (e, de resto, em todo o AT) Deus proíbe o culto de adoração (latria). Mas como você já sabe, existe inúmeros artigos no VS acerca do assunto, pelo que eu não preciso prosseguir neste ponto.

4. Relativamente à Lei de Moisés, e à necessidade de pelo menos 2 testemunhas, há, aqui, um equívoco da tua parte. O AT exige duas testemunhas para que alguém seja condenado (Nm 35, 30; Dt 17, 6). Ou seja, a regra se aplica sobre fatos, e, mesmo assim, para efeitos jurídicos. Uma definição doutrinária não é um fato, é um enunciado. Apenas por isto, a regra já não se aplicaria às definições papais ex-cathedra. Que testemunhas você tem, por exemplo, que Deus é único? Que testemunha você tem acerca da comunhão trinitária? Que testemunha você tem acerca da Ressurreição final dos mortos (ainda não ocorrida?). Todos estes são pontos de fé, para os quais ninguém precisa de testemunha alguma.

Mas é preciso deixar claro que mesmo fatos, desde que sem implicações jurídicas, escapam à regra por você mencionada. Não há testemunhas acerca da criação; das tentações de Eva; do sacrifício de Isaac; do acontecimento da sarça ardente de Moisés; da entrega das Tábuas da Lei ao mesmo; da anunciação do Anjo à Maria, etc.. Isto para não falar numa infinidade de fatos bíblicos em que há uma única testemunha.

Esta tua primeira crítica ao catolicismo, caro Hudson, no fundo e em essência apenas revela o que eu chamo de bug do livre exame. Uma prova contundente de que ele não funciona…

5. Sobre a afirmação de que não conheceríamos o protestantismo atual, tenho a replicar que muitos dos membros do VS, há muito pouco tempo, eram protestantes. Aliás, conheciam o protestantismo profundamente.

A crítica que fizemos a Lutero tinha um objetivo que, ao que parece, você não alcançou. Eu sei que os protestantes não apóiam a sua fé em Lutero, apoiando-a na conjugação do sola scriptura com o livre exame. No entanto, é fato inegável que todos os protestantes são filhos dele, direta ou indiretamente, assim como é fato de que tanto o livre exame quanto o sola scriptura foram postulados básicos do homem que iniciou a Reforma.

É intrínseca, portanto, ao protestantismo a idéia que Lutero, apesar de falível, teria sido um instrumento de Deus para libertar a cristandade do julgo papal. É latente a idéia de que o mesmo agiu impulsionado pelo Espírito Santo, sendo que tal impulso representa uma garantia de que os protestantes atuais também o fazem.

Mas, o que aconteceria com o protestantismo se ficasse provado que o “espírito” por detrás da Reforma foi outro? A qual conclusão você chegaria se fosse deparado com o fato de que Lutero não foi um campeão da fé, mas um blasfemo, orgulhoso e dissoluto, cujas idéias revelam (ou, pelo menos, revelariam) um impulso demoníaco?

A qual conclusão você chegaria se provado que a Reforma nada mais foi do que uma manobra do Demônio para enfraquecer a cristandade? O texto sobre Lutero é apenas um indício (obviamente, não prova nada) de que é de fato o Pai da Mentira quem impulsionou a Reforma.

É claro que você, sendo batista, se refugiará na idéia de que a tua é anterior ao próprio luteranismo. No entanto, ela encontra-se dentro do movimento iniciado e impulsionado por Lutero e, portanto, participa dos efeitos desta mesma Reforma.

6. Relativamente aos Testemunhas de Jeová e aos Mórmons, algo deve ser dito. Os Mórmons, de fato, não podem ser enquadrados como protestantes. Muito embora o seu fundador tenha sido um “filho de Lutero”, na verdade a fé desta igreja se baseia no Livro de Mórmon, com doutrinas tão estranhas e tão diversas que, verdadeiramente, os coloca para além das fronteiras protestantes.

Com relação às Testemunhas de Jeová, contudo, a situação é outra. Elas são, sim, protestantes (no sentido de terem nascido de Lutero). Seu fundador era protestante; as doutrinas ensinadas pelo “Corpo Governante” surgiram da mesmíssima conjugação de sola scriptura com o livre exame da qual nasceram todas as outras heresias e esquisitices que pululam os diversos segmentos do protestantismo.

O teu argumento de que eles seguem uma Bíblia diferente da original é apenas uma meia verdade. O mesmo seria correto se as doutrinas das TJs derivassem desta Bíblia deturpada, mas, historicamente, ocorreu o contrário. As doutrinas deturpadas em questão surgiram do (livre) exame da mesmíssima Bíblia usada pelos protestantes. Posteriormente é que as TJs, ao editarem sua Tradução do Novo Mundo, resolveram dar uma retorcida no texto original para adaptá-lo às suas doutrinas.

Ou seja: a Tradução do Novo Mundo é fruto das doutrinas estranhas das TJs, e não o contrário como você deu a entender.

Aliás, Lutero foi o precursor das TJs ao colocar um somente em Rm 3, 28 para tentar dar ao sola fide uma fundamentação bíblica. Parafraseando o ditado popular: tal pai, tais filhos…

E, frise-se, meu caro Hudson, você não tem como afirmar que os TJs é que estão em erro. Não há, fora do catolicismo, qualquer autoridade humana que possa garantir, a quem quer que seja, que a seita A interpreta corretamente a Bíblia, enquanto que a seita B a interpreta erroneamente. Se há o livre exame, então, toda interpretação, por mais absurda, é válida e não pode ser contestada.

Se existe uma doutrina bíblica, à qual todas as igrejas devem se submeter (sob pena de, usando as tuas palavras, encontrarem-se em heresia), então o livre exame é uma balela. Quem tem que se submeter a uma doutrina bíblica (estando à mesma vinculado) não tem liberdade de examinar as Escrituras à busca de uma doutrina. Se existe uma doutrina bíblica, não existe o livre exame.

7. Por fim, num esforço heróico da tua parte, você tenta nos provar a existência de um “consenso protestante” acerca de alguns pontos fundamentais da fé. Há vários problemas nesta tentativa, e rogo ao Senhor para que Ele me permita expor meu ponto de vista.

Em primeiro lugar, este “mínimo doutrinário” indispensável para a ortodoxia dos protestantes foi estabelecido por você de forma bastante arbitrária. O porquê dos pontos elencados serem importantes (e o porquê de todos os demais não o serem) permanecerá sempre na obscuridade. Há alguns pontos elencados que não representam doutrinas relevantes (conversão de Israel, arrebatamento, etc.). Há, por outro lado, inúmeros pontos essenciais discordantes que você não elencou, dos quais, exemplificadamente, cito: necessidade ou não do batismo, observância dominical, papel de Maria e dos Santos, presença de Jesus Cristo nas espécies do pão e do vinho, possibilidade ou não do divórcio, uso de anticoncepcionais, legitimidade do aborto, existência da alma, utilidade das obras, necessidade de que os cristãos se congreguem numa igreja, teologia da prosperidade, etc, etc, etc.

Todos estes temas são de uma importância imensa, e sobre nenhum deles há um consenso protestante.

Mesmo entre os temas que você elencou, há profundo dissenso entre os mais diversos grupos protestantes. Não é necessário, sequer, uma pesquisa (como você sugeriu) para mostrarmos o quão equivocada é a tua visão do consenso protestante. Vejamos, exemplificadamente, alguns dos pontos que você levantou.

a) crença protestante em toda a Sagrada Escritura (Antigo e Novo Testamento) como infalível Palavra de Deus, inspirada pelo Espírito Santo e autoridade máxima em todas as questões de fé (2 Pe 1.21; 2 Tm 3.16-17).

As coisas não são tão simples assim. Existem grupos protestantes que, ao lado da Bíblia, aceitam outros escritos como inspirados e dignos de fé. Exemplo mais marcante são os adventistas, que têm os escritos da Sra. Ellen G. White como inspirados por um “Espírito de Profecia”. Além destes, os Testemunhas de Jeová aceitam todas as balelas que provém do Corpo Governante como inspiradas e indiscutíveis. Os seguidores da Santa Vó Rosa crêem em vários escritos redigidos sob a inspiração do “Espírito Consolador ” (a própria Vó Rosa) e que seriam, portanto, tão inspirados quanto a Bíblia.

Não bastasse isto, e há ainda outro sério problema. Para a maioria dos protestantes, uma grande parte da Bíblia simplesmente perdeu autoridade. Todas as inúmeras passagens do Antigo Testamento que falam acerca das leis mosaicas não são mais de observância obrigatória, e, portanto, não têm mais qualquer poder de vinculação.

Há, contudo, grupos que vêem, nestas passagens, mandamentos válidos para hoje, e, portanto, dotados de autoridade. Questões como a transfusão de sangue, a observância do sábado, as vedações alimentares ainda são tidas por obrigatórias por um sem número de protestantes.

b) crença protestante na unidade de Deus o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Ef 4.4-6; Ef 3.15-17).

Ao contrário do que você pensa, não são apenas os Testemunhas de Jeová que não aceitam a Santíssima Trindade. Um grupo cada vez maior de protestantes se intitulam “não trinitaristas”, rejeitando, ora a comunhão entre as Pessoas Divinas, ora a própria divindade de Jesus Cristo e do Espírito Santo.

c) crença na libertação da culpa, do poder e da condenação, através do sacrifício completo do Filho de Deus que se tornou homem e no poder purificador e remissor do seu sangue derramado na cruz do Calvário (1 Co 6.11; Rm 3.25; Ef 1.7).

Existe um grupo protestante chamado de “Igreja Cristã Essencial” que prega, entre outras, que: “Os sofrimentos desta vida são castigos de pecados cometidos em encarnação passada. Os pecados não perdoados praticados nesta encarnação serão castigados em outra vida.”

Ou seja, para este grupo, não existe qualquer “libertação da culpa através do sacrifício do Filho de Deus”. Para eles, o homem se salva expiando os seus próprios pecados, numa idéia muito próxima à do espiritismo.

Não bastasse isto, por detrás da teologia da prosperidade (teologia esta que é a única e verdadeira responsável pelo crescimento dos protestantes no Brasil), subjaz a idéia de que o sacrifício de Cristo não tem, exatamente, a eficácia de nos libertar da culpa do pecado. Segundo esta teologia, o Sacrifício Vicário serve, primordialmente, para nos garantir uma vidinha aburguesada, apequenada e amesquinhada. Vidinha esta que é o sonho de todo ocidental…

d) crença no batismo como ato de obediência e de testemunho daquilo que ocorreu com uma pessoa no renascimento (Rm 6.3-4).

Desde os primórdios da Reforma, não há qualquer consenso entre os protestantes acerca do batismo, sua eficácia, sua administração às crianças e sua maneira de ser administrado. Cito para você alguns “credos” de igrejas protestantes, apenas para exemplificar a questão.

CONFISSÃO DE FÉ DE AUGSBURGO

ARTIGO 9: DO BATISMO

Do batismo se ensina que é necessário e que por ele se oferece graça; que também se devem batizar crianças, as quais, pelo batismo, são entregues a Deus e a ele se tornam agradáveis.

Por essa razão se rejeitam os anabatistas, os quais ensinam que o batismo infantil não é correto.

2. Somente podem ser submetidas a esta ordenança as pessoas que de fato professam arrependimento para com Deus, fé e obediência ao Senhor Jesus.4

4Mc.16.16: Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.

4. Para a devida administração desta ordenança é necessária a imersão, ou seja, a submersão da pessoa na água.

6Mt.3.16: Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele.

 

CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, no capítulo 28, artigos 3, 4 e 6 diz que:

III. Não é necessário imergir na água o candidato, mas o batismo é devidamente administrado por efusão ou aspersão.

Ref. At. 2:41, e 10:46-47, e 16:33; I Cor. 10:2.

IV. Não só os que professam a sua fé em Cristo e obediência a Ele, mas os filhos de pais crentes (embora só um deles o seja) devem ser batizados.

Ref. At. 9:18; Gen. 17:7, 9; Gal. 3:9, 14; Rom. 4:11-12; At. 2:38-39.

VI. A eficácia do batismo não se limita ao momento em que é administrado; contudo, pelo devido uso desta ordenança, a graça prometida é não somente oferecida, mas realmente manifestada e conferida pelo Espírito Santo àqueles a quem ele pertence, adultos ou crianças, segundo o conselho da vontade de Deus, em seu tempo apropriado.

Ref. João 3:5, 8; Gal. 3:27; Ef. 5:25-26.

 

Como você vê, as duas confissões de fé acima rejeitam a tua idéia de “ortodoxia” protestante. O batismo possuiria uma eficácia em si mesmo (não sendo um mero ato de “obediência” e de “testemunho”), podendo, inclusive, ser ministrado a crianças, que, por óbvio, segundo a crença da tua Igreja, ainda não “renasceram” em Cristo mediante a fé.

e) Crença na necessidade do renascimento do homem através da Palavra de Deus, vivificada pelo Espírito Santo.

Nem sobre este ponto há verdadeiro consenso. A simples menção das confissões protestantes acima revelam que, para determinados grupos protestantes, o renascimento não se dá através da palavra, mas através do batismo, sendo possível que mesmo crianças renasçam em Cristo. Só isto já bastaria para provar que o suposto consenso protestante acerca deste ponto simplesmente não existe.

Além disto, a maioria dos protestantes crê num “livre exame”, mas existem aqueles que aceitam um Magistério a que todos devem se submeter (negando, por isto mesmo, o dogma protestante mencionado). Sobre isso Dom Estevão Tavares Bittencourt, osb, diz que:

No tocante às Sagradas Escrituras, Calvino era mais severo que Lutero. Este havia proclamado indiscriminadamente o ?livre exame? da Bíblia, segundo o qual cada crente pode interpretar a Escritura conforme seus critérios próprios ?inspirados pelo Espírito Santo? no íntimo do coração, sem orientação do magistério da Igreja. Ora, Calvino percebeu que este princípio levaria ao esfacelamento das comunidades por ele fundadas: cada cabeça poderia ter a sua sentença na interpretação das Escrituras; por isso Calvino queria que a Igreja ajudasse cada fiel a crer o que é certo e a comportar-se devidamente. Acontece, porem, que a orientação da Igreja em favor da reta e da autêntica Moral parece contradizer os princípios mesmos da Reforma protestante; esta partia da premissa do livre exame. Por isso as denominações protestantes – inclusive a presbiteriana – se viram sempre sujeitas à ação dos não-conformistas ou daqueles que se insurgiam contra as normas baixadas pela autoridade da sua Igreja e, conseqüentemente, se tornavam fundadores de novas e novas ?igrejas? (…) O individualismo não leva à reforma da comunidade, mas a rupturas sucessivas, donde surgem comunidades da vez mas distanciadas das suas origens e influenciadas por correntes heterogêneas.

f) Crença na volta de Jesus Cristo para o arrebatamento da sua Igreja comprada pelo seu sangue e na Sua volta, com a Igreja, em grande poder e glória.

O arrebatamento não pode, honestamente, ser elencados entre os pontos de uma ortodoxia protestante. Tal teoria é extremamente recente, pelo que, se para que um crente pertença à tal “ortodoxia” o mesmo deve crer que haverá um arrebatamento da igreja, então, mais de dez gerações de protestantes (contadas do início da Reforma até o surgimento desta doutrina) eram heréticas e de fé defectiva.

Mesmo entre os protestantes que aceitam esta doutrina, não há unidade. Para alguns, o arrebatamento ocorrerá antes da tribulação final. Para outros, ocorrerá durante esta tribulação. Para outros, por fim, depois. Não há, igualmente, unidade de pensamento acerca do que acontecerá com os que “forem deixados para trás”.

g) Cremos na ressurreição dos mortos e em uma vida eterna para aqueles que pertencem a Cristo e na eterna perdição de todos os homens que não se entregaram a Jesus Cristo (Jo 3.36; 1 Jo 5.12).

Nem de longe estes pontos de fé são aceitos por todos os protestantes. Há o grupo dos aniquilacionistas, que pregam que os que não se acharem dignos da vida eterna, juntamente com os demônios, serão consumidos pela cólera divina e, por fim, desaparecerão para sempre. Não haverá uma condenação eterna.

Como você vê, caro Hudson, sem pesquisas já foi possível demonstrar que em quase todos os pontos supostamente consensuais entre os protestantes, não há verdadeiro consenso. E olhe que haveria dezenas de milhares de igrejas para pesquisar, só em nosso país. Imagine as esquisitices que não devem, infelizmente, ser pregadas nas mesmas.

Fique com Deus,

Alexandre.

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