O leitor Hudson, em reposta ao nosso artigo “Leitor Afirma Haver Consenso entre os Protestantes“, enviou-nos a mensagem abaixo, escrita em preto. Nossa tréplica segue em azul.

Obrigado pela resposta, Alexandre, e principalmente, pelo estilo desta, comentário geral, sem o tradicional linha a linha. Meu caro, com todos os vossos argumentos em defesa do papa, foi impressionante como você colocou em questão a Palavra de Deus; colocaste a vossa opinião de maneira um pouco emotiva, sem uma análise mais profunda dos fatos. Eu creio na infalibilidade das Escrituras, e cada livro (com exceção dos apócifros, pois contradizem diversas circunstâncias) é inspirado pelo Espírito Santo. Ponto final.

Porém, o papado é quem tenta contradizer as Escrituras, e não eu. Se vocês, de fato, considerassem as Escrituras como infalíveis, não permitiriam passivamente a imposição de novos dogmas; o papa não é mais que um homem que tem um cargo dentro da igreja. Entender a infalibilidade do Espírito de Deus aos homens pode ser qualquer coisa, menos sensato. Você cometeu um grande erro, Alexandre, ao afirmar que o papa é infalível; não é isso que eu encontro na epístola de Paulo aos Gálatas, capítulo 5, versos 11 ao 14 (inspirada pelo Espírito Santo). Pedro se fez repreensível, e foi corrigido por Paulo. Quem é infalível não pode errar, e esse é um só, Deus. Todo homem pode errar. Adão pecou sendo perfeito, num planeta perfeito. Pedro foi um homem que Jesus escolheu para a propagação do seu Evangelho entre os judeus, da mesma maneira que escolheu Paulo para os gentios, Samuel como o profeta que ungiria o maior rei humano de todos os tempos.

Todos são dons dados por Deus aos homens. Aliás, se toda a palavra é inspirada por Deus (não  questiono, afirmo), como explicar, considerando a infalibilidade papal, Ec 7.20, que diz: “Não há  homem justo sobre a terra que não peque”? Contra a palavra não há argumentos. Não há outro sentido para  esse versículo. Todo ser humano peca, porquê descende de Adão. Paulo, Pedro, Davi, Maria, José, Martinho Lutero, João Calvino, João Paulo II. Somente Jesus não pecou, por ser homem e Deus ao mesmo tempo. Não herdou a herança pecaminosa de Adão, pois não foi gerado por um homem. Eu já pequei, você também. 1Jo 1.8-10 nos diz: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda a injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.”. Como a Palavra é  contundente e cortante em muitos pontos, como esse trecho da epístola, o homem inventa novos dogmas para “fugir” da sua realidade pecaminosa. Cria-se uma imagem de Maria, Mãe de Jesus, como a exceção da regra de Deus. Imaculada Conceição, Co-Redentora… Ainda bem que você, como eu, reconhece a palavra de Deus como verdade absoluta; não temos em que discordar quanto a isso. Maria foi considerada sim um ser humano bem-aventurado, pois seria maravilhoso para qualquer mulher ser mãe de Jesus. Mas Maria não é diferente de qualquer outro homem, limitada, pecadora e carecente da salvação trazida pelo seu Filho.

A Palavra de Deus em primeiro lugar, e ponto final. Criam-se atalhos para implementar novos dogmas, mas sempre existe um bloqueio: a Palavra de Deus. Esta não tem homem que possa revogar. Jo 3.16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Não diz nada sobre veneração a Maria, santos ou relíquias, nem a necessidade de ter imagens de ninguém, nem do próprio Jesus. Os exemplos de Moisés e a serpente de ouro, muito usados pelos católicos, não figuram uma constante, porém, um caso especial (não é todo dia que Deus manda serpentes venenosas contra um povo, concorda?).

E se a Palavra não se contradiz, 2Co 5.7 diz: “visto que andamos por fé e não pelo que vemos”. Não há como sustentar a doutrina católica com o base na Bíblia, pois os argumentos humanos jamais vão sobrepor a Palavra de Deus. Eu, não como batista, nem tampouco como protestante, mas como alguém que, com a minha consciência para com Cristo, posso dizer que tenho lutado para seguir no Caminho, afirmo que a questão de descordo com o catolicismo não vem somente em razão da desavença com os protestantes, mas pela deturpação da Palavra.

Adventistas ou Católicos, Batistas ou Luteranos, Mórmons ou Testemunhas de Jeová, “todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho” (2Jo 9). Quem não tem Deus vai ter direito a segunda morte, invés da árvore da vida. Chega de defender denominações, sendo que o que devemos defender é a verdade. Realmente, teria muito ainda para falar com relação à minha opinião, mas tomarei algumas palavras ditas por Elias, o profeta de Deus, e repetirei a todos vós, católicos: “Então, invocai o nome de vosso deus, e eu invocarei o nome do SENHOR; e há de ser que o deus que responder por fogo, esse é que é Deus.” (2Rs 18.24). Acabo passando um interesse puro em defender os protestantes, mas me preocupo com as vossas almas, e também com a minha alma; gostaria de convidá-lo a juntos, tomarmos essa prova por certeza da doutrina. Aceitas? Aguardo uma resposta.

Deus nos abençoe.

“Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até o ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição” (2Pe 2.1)

 

Caro Hudson,

Desculpe-me a demora em te responde. Tenho andado muito ocupado e sem tempo para me dedicar à apologética. Desde já, caso você resolva replicar, peço paciência para a minha tréplica, pois o tempo disponível para mim será ainda mais curto nas próximas semanas.

Em sua primeira mensagem, resumidamente, você tentara demonstrar que:

a) O papado é falível;

b) a eucaristia não pode ser uma repetição do sacrifício de Cristo, visto que a primeira delas foi celebrada antes que tal sacrifício se consumasse;

c) Deus proibiu o culto aos santos;

d) a Lei de Moisés exigia duas testemunhas para que determinado testemunho fosse confiável, o que negaria o papado;

e) que os TJs não são protestantes, baseando suas doutrinas numa Bíblia diferente da original;

f) que há um consenso protestante acerca de determinados pontos de fé.

Eu, também resumidamente, repliquei que:

a) Se não podemos confiar na infalibilidade papal, não podemos, igualmente, confiar na inerrância bíblica;

b) a eucaristia não é a repetição do Sacrifício de Cristo, mas é o próprio Sacrifício que se faz presente;

c) Deus não proibiu o culto aos santos;

d) a exigência mosaica aplicava-se, apenas, a fatos e mesmo assim para que deles se extraíssem efeitos jurídicos;

e) Os TJs são tão protestantes quanto os batistas, e suas doutrinas esquisitas foram tiradas da mesma Bíblia por você utilizada;

f) Os pontos “consensuais” por você sugeridos nunca foram consenso entre os diversos grupos protestantes.

Nesta segundoa mensagem, você ignorou quase tudo daquilo que eu havia escrito. Limitou-se ao papado e ao culto as santos. Pergunto: você se convenceu de teu equívoco quanto aos demais pontos levantados? É importante que, antes de prosseguirmos, venhamos a sedimentar o que já ficou para trás.

Passemos, agora, ao mérito desta tua segunda mensagem.

Primeiramente, eu gostaria de deixar claro que em nenhum momento eu fui emotivo ao defender o papado. Aliás, a emotividade é uma característica que eu jamais encontrei em qualquer apologista católico, seja brasileiro, seja estrangeiro. Eu apenas tentei demonstrar que:

a) Você crê nas Escrituras mas nega que o papado, instituição ocupada por um homem, seja confiável;

b) se você fosse coerente com este teu ponto de vista, mesmo a Bíblia não seria digna de confiança, pois ela foi escrita por homens falíveis. Aliás, por homens tão falíveis quanto o Papa.

Ora, Hudson (sinceramente, esta era a questão que eu esperava ver respondida por você), se não podemos confiar no papado devido à falibilidade humana, como então podemos confiar na Bíblia escrita por homens?

Não houve uma resposta da tua parte. Sigo aguardando por ela.

Você, por exemplo, afirmou, literalmente: “estender a infalibilidade do Espírito de Deus aos homens pode ser qualquer coisa, menos sensato“. O fato, Hudson, é que você (como todos os legítimos protestantes do mundo) ao confiar na Bíblia, sem o perceber, nada mais faz do que estender a infalibilidade do Espírito Santo aos homens que a escreveram. Tanto o faz que julga serem infalíveis os escritos de seres tão pecadores quanto Davi (adúltero e assassino), Mateus (pecador público), Paulo (fariseu e perseguidor), apenas para ficarmos em alguns exemplos. Que garantia você me dá, dentro da tua visão, que os mesmos, ao escreverem a Bíblia, não acrescentaram um sem número de “tradições humanas”?

Se não há garantias para o papado, não há garantias para a Bíblia. Por outro lado, se Deus é poderoso o suficiente para ter impedido que os escritores sagrados errassem ao redigir o texto santo, então, Ele é poderoso o suficiente para impedir que os Papas (e o Magistério) errem ao definir as doutrinas católicas.

É ou não é? Por favor, não fuja desta pergunta!

Prosseguindo na tua carta, você afirmou ter eu cometido um grande erro ao afirmar que os Papas são infalíveis. E quais seriam, segundo você, as provas deste “grande erro”? Simples: numerosos textos bíblicos que demonstram, cabalmente, que todo homem é pecador, máxime, o texto da Epístola aos Gálatas onde São Pedro erra publicamente e, também publicamente, é repreendido por São Paulo (aliás, dê uma olhadinha no meu texto “O Primado de Pedro e a Epístola aos Gálatas“, onde eu tento demonstrar que este famoso episódio, antes de solapar a doutrina do papado, a confirma solenemente).

Se você me permite uma observação, o grande erro em questão foi cometido por você, e não por mim. Sabe qual é o teu erro (aliás, o erro de todos os protestantes com quem eu já debati)? O de não conhecer o dogma da infalibilidade papal.

Meu caro Hudson, todos os papas pecam. Aliás, alguns pecaram muito. Isto não tem nada a ver com a infalibilidade. O dogma católico da infalibilidade é a crença cristã, existente deste o começo do cristianismo, segundo a qual o Papa, ao se pronunciar solenemente acerca de doutrina e de fé, não pode errar.

Portanto, a infalibilidade papal nada tem a ver com a “impecabilidade dos Papas”. O Papa é infalível ao definir pontos de doutrina e de fé (e somente ao definir pontos desta natureza). E, além disto, para que tais definições sejam infalíveis, é necessário que o Papa em questão o realize solenemente, explícita ou implicitamente invocando o poder das chaves que o próprio Jesus lhe conferiu.

Como você já deve estar percebendo, os textos bíblicos por você citados na tentativa de derrubar a crença católica na infalibilidade papal (Epístola aos Gálatas, inclusive) não servem para absolutamente coisa alguma, uma vez que os mesmos se limitam a afirmar que todos somos pecadores.

Outro erro teu (e, não por acaso, de todos os legítimos protestantes do mundo) é o de desconhecer, em sua essência, o que é um dogma. Você acha que os dogmas são criados (verbis: “o homem inventa novos dogmas para ‘fugir’ da sua realidade pecaminosa”). Ora, Hudson, os dogmas não são inventados por ninguém. Eles são reconhecidos! A proclamação de um dogma é o solene e infalível reconhecimento de que o ponto de fé ou de moral neles contidos sempre existiram.

E que todos os dogmas católicos já estavam presentes, ao menos implicitamente, no primórdio do cristianismo é fato historicamente documentado. Se você não tiver medo da verdade, basta estudar os escritos e as gravuras dos primeiros cristãos para se certificar disto.

Relativamente às imagens, você disse que, verbis: “os exemplos de Moisés e a serpente de ouro, muito usados pelos católicos, não figuram uma constante, porém, um caso especial (não é todo dia que Deus manda serpentes venenosas contra um povo, concorda?).” Este ponto merece alguns comentários.

Há duas (e apenas duas) possibilidades:

a) O mandamento que proíbe a construção de imagens deve ser entendido da maneira protestante, pelo que toda e qualquer imagem encontra-se terminantemente proibida. Neste caso, Deus estaria dando uma contra-ordem, desdizendo-se, mostrando toda Sua imperfeição, e, portanto, não seria Deus.

b) O mandamento em questão não deve ser entendido à maneira dos protestantes, pelo que nem toda e qualquer imagem deve ser proibida.

Obviamente, a única alternativa viável no caso é a da letra “b” acima. Isto nos leva à necessidade de nos indagarmos quais, afinal, são as imagens permitidas, e quais são as proibidas. Da mesma forma (apenas para darmos alguns exemplos), o mandamento de “não matar” não deve (e nem pode) ser interpretado segundo a vertente “protestante-xiita”. Nem este mandamento é absoluto, pois existem ocasiões em que matar é legítimo. Cito apenas algumas: legítima defese, guerra justa, pena de morte em casos extremos, etc..

Tanto o mandamento de não matar não é absoluto que o próprio Deus, em inúmeras situações aprovou o homicídio. Aliás, em algumas situações Ele mandou que se matassem os inimigos de Israel. Portanto, o bom exegeta bíblico deve se questionar em que situações o matar é legítimo, e em que situações esta atitude fere o mandamento divino.

O mesmo ocorre em relação à guarda do sábado. Se você me permite uma observação, os fariseus do tempo de Jesus entendiam este mandamento de uma forma, digamos, digna de um protestante. O sábado era inviolável e ponto final! Não entendiam que existem ocasiões em que o sábado poderia ser violado, e ocasiões em que o mesmo não poderia.

Os fariseus cometiam, com relação ao sábado, o mesmo erro que os protestantes cometem em relação às imagens…

Ora, como foi dito acima, é necessário que o exegeta vá além da letra e entenda o que existe por detrás do mandamento proibitivo de imagens. E, como demonstrado ad nauseam no VS, com tal mandamento Deus quis, apenas e tão-somente, impedir que Israel confeccionasse ídolos para a adoração.

E só.

Aliás, você já reparou que os protestantes também têm suas imagens? Eles (a exemplo dos cristãos primitivos) adoram aquela imagem do peixinho, representando Jesus Cristo. Não há nada de errado com isto, desde que se adote o entendimento católico. Dentro da visão iconoclasta dos protestantes, a imagem de um peixe, ainda que represetando Jesus Cristo, é uma imagem. Imagem, aliás, proibida juntamente com todas as demais.

Principalmente quando se sabe que não existe na Bíblia nenhum versículo que diga ser o peixe o símbolo de Jesus e do cristianismo.

Dentro da visão protestante, este peixinho nada mais é do que uma solene desconsideração da lei de Deus em troca das tradições humanas.

Durma-se com um barulho destes!

Relativamente ao teu “desafio de Elias”, sinceramente eu não entendi o que você quis dizer. Talvez (estou apenas tecendo uma conjectura) você queira afirmar que será Deus a provar quem, afinal, está com a Verdade. O fogo de Deus queimará os falsos profetas e fará brilhar a verdade. Seria isto?

Se for, fique à vontade. Que diferenças entre católicos e protestantes você, afinal, gostaria de fazer passar pela “prova de Elias”. A Igreja Católica supera toda e qualquer denominação protestante em todo e qualquer ponto que você possa sonhar.

A Igreja Católica tem muito mais adeptos do que qualquer igreja protestante. Nossa igreja tem uma abrangência territorial que a maior igreja protestante jamais se permitiu sonhar. O número de povos e nações abertas ao catolicismo simplesmente não possui paralelos com nenhuma outra religião em todos os tempos.

A Igreja Católica possui uma imensa quantidade de pessoas que, entre cristãos e não-cristãos, se tornaram famosas pelas suas santidades (fruto que nenhuma igreja protestante pode exibir).

A Igreja possui os maires teólogos, biblistas e filósofos. Foi a doutrina católica que inspirou as maiores representações artísticas da história.

A Igreja Católica é a mais perseguida e odiada por aqueles que, abertamente, se declaram contrários ao cristianismo e à idéia de um Deus Todo Poderoso. É a mais caluniada, injuriada e incompreendida de todas as religiões.

O catolicismo tem demonstrado um vigor impressionante e, mesmo nestes tempos de crise, cresce em regiões tão díspares quanto a África e os EUA. Na Europa, cada vez mais atéia, a Igreja dá sinais impressionantes de vitalidade e de resistência ao secularismo. Já as igrejas protestantes do norte europeu têm sido, literalmente, varridas pelo ateísmo militante, sem possibilidades de oporem quaisquer resistência mais vigorosa.

Por fim, a Igreja tem mantido, nestes vinte séculos, uma mesma doutrina, sendo dirigida sempre pelo bispo de Roma. Já os protestantes, desde o primeiro século, dão um lastimável espetáculo de divisões, desentendimentos, defendendo doutrinas mutuamente excludentes e, algumas, francamente ridículas.

Que outros aspectos você quer fazer passar pela “prova de Elias”? Fique à vontade. Basta olharmos a história sem paixões para verificarmos, claramente, um fato: nestes vinte séculos de cristianismo, Deus insistentemente tem confirmado a veracidade e a origem divina da Igreja Católica. Nestes cinco séculos de protestatismo, Deus tem permitido que os homens percebam, com nitidez, o erro de todos aqueles que se distanciam da Barca de Pedro.

O protestantismo, sinceramente, é a maior prova da verdade católica.

Definitivamente, a “prova de Elias” manifesta a superioridade da ùnica e Verdadeira Esposa de Cristo.

Fique com Deus,

Alexandre.

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