Artigos (por Carlos Ramalhete)

Modernidade superficial e tradição profunda: uma chave

Estamos num momento histórico interessante, em que uma era chega ao fim sem que se saiba o que virá depois. Um europeu do século XV não teria como imaginar que em breve sua região dominaria o mundo, ao receber assustado a notícia da queda de Constantinopla nas mãos dos muçulmanos, simultânea à edição da Bíblia de Gutemberg, dois anos após o nascimento de Cristóvão Colombo. Nós, do mesmo modo, não sabemos o que estará nos livros de história daqui a alguns séculos, e não temos como ter uma visão clara da situação atual.

É fato reconhecido pela maior parte dos estudiosos, contudo, que uma era chega ao fim. Neste artigo, trato-a por modernidade.

Um dia, quem sabe, esta forma de ver o mundo será percebida como uma loucura coletiva, um surto de insensatez que dominou o mundo por cerca de duzentos anos. A limitação de espaço me impede de traçar com mais vagar suas origens filosóficas, mas, resumindo muito, podemos afirmar que a diferença específica do pensamento moderno é uma forma de solipsismo, que começa com a negação dos universais em Occam e se cristaliza plenamente no cartesianismo.

Tudo está no homem, na mente do homem, na mente de cada homem. O terreno comum, para o moderno, não é o mundo em que se vive, mas a razão, que estaria presente em cada homem sem que isso implicasse em uma natureza humana.

As consequências sociológicas deste pensamento começaram o seu domínio real com as Revoluções americana e francesa, e chegaram a seu auge em meados do século passado, com as formas adultas da modernidade (comunismo, nazifascismo e capitalismo) em conflito aberto.

Sua característica principal é a percepção da ordem social como algo exógeno, produzido pela razão e a ser imposto pela força a toda a sociedade, percebida como tábula rasa desorganizada e informe. Como corolários, temos a ideia de um poder impessoal (que seria o representante da razão), aplicando a lei “na forma de um silogismo”, como escreveu Beccaria, a cidadãos iguais entre si.

Este igualitarismo exacerbado, contudo, outra característica moderna, rapidamente encontra seu limite na diferença real entre as pessoas, percebida inicialmente como restrição no conjunto de “iguais” – excluindo-se dele mulheres, negros, orientais, judeus… – e posteriormente como algo a combater, impondo a todos a mesma forma de pensar e presumindo as mesmas capacidades.

Imersos que estamos na modernidade tardia e decadente, e vendo como alternativa ao discurso moderno apenas a sua forma hipermoderna (ou pós-moderna) exacerbada em que o subjetivismo solipsista atinge até mesmo a presunção moderna de universalidade da razão, é difícil perceber o quanto isto se afasta das formas tradicionais de percepção social. Nenhuma outra forma de ver a sociedade negou tanto, e tão fortemente, os elementos que sempre foram, em toda cultura, percebidos como a base da sociedade: as lealdades pessoais, as diferenças de capacidades e interesses das pessoas e a natureza comum de todos os homens, sua falibilidade e a tolerância que esta requer.

Esta negação do natural, no entanto, foi imposta pela força a muitas sociedades – especialmente na Europa Ocidental e em sua extensão norteamericana – e finalmente introjetada pela maioria da população destes lugares. Do punk alemão que espera que se abra o sinal de pedestres para atravessar a avenida vazia de madrugada ao americano que depende de licença do Estado para casar ou ter um cachorro, povos inteiros aceitaram a ideia de uma sociedade construída de cima para baixo, ordenando exogenamente a vida de indivíduos intercambiáveis que só se relacionam contratualmente.

É este o modelo de sociedade cujos dias estão contados, que já está sendo dissolvido pelo “fim das grandes narrativas” da hipermodernidade. É este o modelo que, no Brasil, sempre existiu apenas “para inglês ver”.

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Em contraposição à ideia de modernidade apresentada acima, uso neste texto o termo “tradição”, referindo-me ao modo de ver o mundo que orienta ética e praticamente as ações da população brasileira. No nosso caso, trata-se de uma visão tradicional moldada pela prática e crença judaico-cristã; ela é mais próxima, contudo, das formas tradicionais do confucianismo, hinduísmo, islã (não wahabita; o wahabismo é uma forma de modernidade) e xintoísmo que de qualquer forma moderna de ver o mundo. A semelhança – que aliás tem se manifestado economicamente na percepção de haver algo em comum entre os países ditos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), em que a modernidade não foi introjetada pela população – vem do respeito cultural às lealdades pessoais, somado ao reconhecimento das diferenças e da falibilidade de nossa natureza humana comum.

A cultura brasileira, por uma série de coincidências históricas de sua formação, apresenta elementos que servem de anticorpos contra a penetração moderna, reduzindo-a a uma presença superficial e – brasileiramente – “pra inglês ver”. Um ponto crucial para a manutenção da nossa cultura tradicional é a sua base católica de fronteira. Os demais países da Europa Ocidental viviam em relativo isolamento, partilhando até mesmo com seus inimigos uma cultura comum. Isso fez com que se desenvolvesse uma falsa sensação de segurança, que permitiu a demolição por dentro de um edifício cultural tradicional e sua substituição pela cultura moderna. Já o catolicismo português foi durante séculos uma religião de resistência em território muçulmano, passando a religião de Estado apenas quando da Reconquista, às vésperas da expansão de Portugal para o Novo Mundo.

O católico português que chegava ao Brasil ouvira de seu avô, quiçá de seu pai, histórias dos tempos de dominação muçulmana. A persistência do catolicismo como religião de Estado não lhe era, em absoluto, óbvia. A necessidade de manter-se a salvo sob a dominação de um poder estrangeiro de fé inimiga já criara na população portuguesa sob domínio muçulmano, tanto judia quanto cristã, uma série de mecanismos de defesa, um discurso duplo que os tornava de fato quase infensos à propaganda dos déspotas muçulmanos.

Para os católicos, a Reconquista mudou drasticamente a situação. Atitudes de desconfiança para com o discurso público, contudo, já se haviam tornado um hábito cultural arraigado. Para os judeus, frequentemente percebidos como aliados dos muçulmanos por haverem ocupado posições importantes na administração e nas profissões liberais, a Reconquista não foi uma boa notícia. Para preservar posições sociais muitos se fizeram batizar, adotando uma fachada cristã que ao mesmo tempo garantia-lhes direitos civis e colocava-os na mira da Inquisição, que só tinha poderes sobre os batizados. Para evitar a constante fiscalização de sua inexistente ortodoxia católica, muitos destes cristãos-novos (ou marranos) partiram para o Brasil. Os mesmos hábitos culturais portugueses de fuga ao confronto que lhes haviam sido uteis quando sob o jugo muçulmano serviram-lhes de escudo contra a Inquisição. Alguns destes mecanismos de sobrevivência religiosa – como o hábito de esconder a mezuzá (pergaminho com trecho bíblico que se beija ao entrar e sair de casa) dentro de uma imagem da Virgem, dando ares de devoção mariana à prática tradicional judaica… enquanto se viola o mandamento judeu contra as imagens! – são perfeitos exemplos do “jogo de cintura” com que a prática tradicional se esquiva do confronto aberto.

Enquanto no núcleo do Ocidente a ideia de desconfiar do governante – normalmente um correligionário – sempre foi mal vista, facilitando a introjecção da modernidade na forma de pensar e agir e a substituição da visão de mundo clássica pela preponderância da ideia sobre a realidade quando era o governante que instava a fazê-lo, no Brasil português a verdade sempre fora algo que não se prestava ao consumo público. Ao que vinha de cima dizia-se “sim senhor”, sem agir de acordo. Mais valia evitar conflitos com a autoridade e repetir da boca para fora o discurso socialmente palatável, preservando a integridade dos costumes tradicionais contra quaisquer ortodoxias religiosas e sociais; o mesmo mecanismo provou-se mais tarde igualmente eficaz contra as ortodoxias ideológicas da modernidade.

Tanto a cultura judaica quanto a cultura católica apresentam elementos radicalmente contrários aos pressupostos mais básicos e elementares da modernidade. Com esta cultura tradicional religiosamente híbrida como ponto de partida e estes mecanismos de defesa como estratégia, a cultura brasileira pôde se desenvolver de modo a manter a modernidade à distância, cedendo-lhe o controle teórico da sociedade, mas sempre lhe negando na prática este controle.

Dentre os elementos tradicionais judaico-cristãos de ação anti-moderna, o mais forte é o senso hierárquico. Ambas as religiões apresentam formas extremamente nítidas de comunhão hierárquica, em que a sociedade é percebida como um conjunto (o Povo Judeu e a Comunhão dos Santos) organizado hierarquicamente de maneira orgânica, com uma hierarquia baseada em critérios fluidos de uma proximidade pessoal que gera uma fidelidade proporcional, de mérito e de adequação a uma ordem geral de origem divina (economia da graça, no catolicismo, e sefirologia, no judaísmo).

A autoridade temporal, mesmo dentro do ambiente religioso (o padre ou Bispo, o rabino…), é percebida como representando (ou não, de acordo com seus atos) a autoridade divina, a única real. Um mau padre ou mau rabino é tradicionalmente tolerado e ouvido no que diz com razão e ignorado quando se afasta do comumente aceito pela tradição, sendo percebido como um parente idoso: deve ser respeitado, não pode ser abertamente desobedecido, mas se falar besteira terá suas ordens ignoradas com um sorriso e sem confronto. A tolerância – inimaginável na modernidade – é extremamente valorizada em ambas as religiões, que reconhecem no homem uma incapacidade de perfeição que daria calafrios a qualquer moderno. Um exemplo atual disto pode ser visto na diferença da reação brasileira e americana/europeia às convulsões ideológicas da Igreja Católica nas últimas décadas; enquanto lá só o confronto foi aberto, aqui as loucuras do clero foram pacientemente toleradas. A forma mais forte de reação foi a adesão a denominações protestantes com um discurso mais conservador, e mesmo assim em geral apenas depois de declarações subjetivistas do clero, que pareceram dar autorização para esta insubordinação aberta.

Com o estado confessional católico substituindo o muçulmano, a sensação para os cristãos era de se haverem tornado amigos do Rei. O governante passou a ser um quase parente, de quem se espera alguma fidelidade, expressa em favores e ajudas. Esta atitude de lealdade desconfiada penetrou profundamente na cultura brasileira, e até hoje permanece. A atitude de Paes de Andrade, que ao assumir interinamente a presidência do Brasil foi trabalhar em Mombaça, sua cidade natal, faz pleno sentido dentro desta visão, por mais que tenha sido ridicularizada pela imprensa moderna. Ele era um mombacense na presidência, e levou a presidência a Mombaça. Se não o fizesse, teria sido acusado de esquecer os mombacenses…

Outro fenômeno, este exclusivamente brasileiro, ajudou a mesclar ainda mais os diversos aspectos formadores desta cultura. Como aponta Gilberto Freyre, a migração de Portugal para o Brasil foi quase exclusivamente masculina. Com isso, muitos dos aspectos diferenciadores da cultura católica portuguesa e da cultura judaica portuguesa foram apagados. Estes aspectos eram predominantemente domiciliares, já apontando para a dicotomia estudada por Roberto DaMatta entre a casa e a rua no Brasil. Os imigrantes, tomando mulheres da terra, preservaram os aspectos exteriores e adaptaram-se a práticas domésticas aborígenes que não correspondiam nem às católicas nem às judaicas. Dentro da casa brasileira, não havia nem o pão ázimo judaico nem o fermentado cristão; comia-se inhame com melado.

Ao mesmo tempo, o fechamento da casa à rua e a extensão daquela a esta foram fortalecidos por esta mestiçagem cultural doméstica. Esta oposição e seus corolários podem ser percebidos no uso de treliças, herdado da cultura árabe, que escondem a casa e suas mulheres indígenas, fantasiadas de parisienses ao sair à rua para “provar” sua adequação exterior a um modelo de sociedade ocidental e católica, na prática negado pelo modo de vida luso-indígena de dentro de casa.

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A modernidade, por outro lado, chegou como teoria pura. O Brasil teve Estado antes de ter população. A população, contudo, já chegou treinada para dizer “sim senhor” ao Estado, evitando os conflitos abertos que a cultura tradicional brasileira vê como fracasso na criação de relações interpessoais harmoniosas, mas fazendo o oposto do previsto na teoria moderna.

Os senhores do Estado já chegaram sendo percebidos como fazendo ou não parte de um clã, de uma panelinha, e assim tratados.

Com a chegada da Família Real e a transferência da capital portuguesa para o Brasil, o país assistiu a uma troca de panelinhas, em que os recém-chegados passavam a ocupar o centro da estrutura hierárquica interpessoal prevista pela visão judaico-cristã, exercendo seu poder com uma familiaridade mal vista pelas outras casas reais europeias. De certa maneira, pode-se dizer que a cultura luso-brasileira driblou a modernidade encarnada em Napoleão quando fez do quintal a casa e se transferiu ao Novo Mundo, deixando o Corso, literalmente, a ver navios.

Com o desenvolvimento trazido pela presença da Família Real, da Imprensa Régia, da Biblioteca Nacional e de outros fatores de desenvolvimento, começou a surgir uma nova classe, predominantemente urbana por razões nada modernas (a proximidade do patronato da Família Real, criando uma possibilidade de criação de relações pessoais harmoniosas com os poderosos). Mais uma vez, o mecanismo histórico no Brasil funciona de outra maneira.

Assim como tivemos governo antes de ter povo, tivemos classe média antes de ter classe mercantil. E uma classe média ciosamente preservada do igualitarismo moderno, criada dentro das treliças e muros da tradição. É interessante observar que esta modernização se operava, mais uma vez, como discurso público de indignação contra os próprios hábitos cultivados em privado.

Tentou-se inutilmente proibir as treliças que ocultavam o interior dos lares urbanos, por exemplo. Lei para inglês ver, contudo, pois – como se pode observar ao passear por qualquer cidade brasileira, com a exceção de alguns guetos de ricos, cujos muros externos fazem as vezes de treliça – ela decididamente não fez do Brasil um país em que as janelas servem de vitrine para o interior da residência, como nos EUA. Ao contrário, até; aqui a casa se estende à rua, mas a rua nunca pode adentrar a casa.

Esta nova classe, formada principalmente por filhos de fazendeiros, foi mais exposta às novidades da modernidade, propagando as ideias que antes eram o apanágio dos que iam estudar em Coimbra. A fundação de universidades no território brasileiro – que, ao contrário do ocorrido na América espanhola, só ocorreu depois da chegada da Família Real – começou a produzir em proporções maiores este fenômeno social tipicamente brasileiro: o sujeito que se orgulha de ser moderno, mas vive de maneira profundamente tradicional, sobrevivendo ou prosperando graças à existência de um sistema tradicional de relações pessoais. Do advogado que faz rápida fortuna graças às amizades do tempo de escola ao grande empresário que subsiste de subvenções estatais conquistadas com apoio pessoal a políticos, todos se orgulham de ser moderno, reclamam por o Brasil não ser como os EUA ou a Europa… até que o guardinha de trânsito os pare e eles o interpelem, indignados com a afronta à situação deles na sociedade tradicional, perguntando-lhe se sabe com quem está falando. Afinal, são amigos do governador, compadres do ministro…

Esta nova classe média rapidamente empoleirou-se em cargos públicos, criando uma divisão em duas castas, até hoje presente no serviço público brasileiro, entre os cargos de nível superior e os cargos que não o exigem. Estes eram dados a pessoas oriundas das classes inferiores, aqueles aos filhos da classe média, sempre como prêmio de relações pessoais.

O Estado, assim, passou a ser o habitat natural da camada que se pretende moderna da sociedade brasileira. No Brasil, ao invés de uma burguesia mercantil, passamos a ter uma burguesia funcionária pública, com privilégios de estamento tipicamente tradicionais. No Império, o inchaço no aparelho estatal foi mais ou menos contido; afinal, o mais moderno, o mais burguês dos burgueses, foi o próprio Imperador D. Pedro II.

Esta defasagem entre as ideias supostamente modernas da classe dominante e o modus vivendi dela mesma e do resto da população – a “décalage sensível entre o representante e o representado” a que se refere João Camilo – fez com que fosse reforçado o fenômeno tradicional luso-brasileiro de duplicidade de opinião, apontado no início deste texto. O discurso oficial, cada vez mais, pretendeu-se moderno. Até hoje a representação política é extremamente personalista, com a maior parte dos votantes ignorando até mesmo o partido do candidato, mas no sistema legal – logo no discurso oficial – as vagas pertencem ao partido, não ao eleito.

Um dos poucos atores mais legitimamente modernos do processo político brasileiro é o Exército. Sua ação, no entanto, raramente ocorre sem ser como resposta aos anseios da mesma classe pseudomoderna que domina o Estado, criando um paradoxo interessante: as intervenções militares no Brasil ocorrem para sufocar um movimento que procura impor a modernidade, mas procuram impor outra forma de modernidade.

Um caso típico é a proclamação da república; um rei burguês, mais burguês que sua burguesia, mexeu com os interesses da tradicionalíssima classe dos grandes produtores rurais. Sua filha e herdeira era casada com um francês que dificilmente poderia ser aceito como pai da pátria quando D. Pedro falecesse. Daria o pensamento moderno razão ao Imperador e legitimidade à herdeira; abespinhou-se, contudo, a sociedade tradicional. Deodoro, que na véspera era monarquista, viu-se alçado à presidência, com os republicanos de primeira hora procurando desesperadamente acionar seus tradicionais pistolões para conseguir um cargo no novo governo.

A mentalidade positivista do Exército – que o levou a incluir dois terços do lema positivista, “o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim” na bandeira da república – levou o novo governo a buscar uma plena modernização do Brasil.

Seu primeiro conflito foi justamente com uma forma de ortodoxia católica que negava, em sua intransigência, os valores tradicionais de tolerância que permitiram a rápida e pacífica instauração do governo republicano. O surgimento do movimento messiânico, católico e ortodoxo de Antônio Conselheiro em Canudos, num momento em que os poderosos tradicionais da região dependiam ainda mais das benesses do Estado – que pagavam com apoio político, numa relação mais assemelhada à vassalagem que à representação democrática moderna – forçou-o à ação.

Canudos era, aos olhos dos modernos, o atraso, o obscurantismo a ser derrubado. Seus habitantes eram mestiços, analfabetos e profundamente religiosos; gente, em suma, que jamais poderia ser considerada “igual” aos pseudomodernos do litoral. A insurreição de Canudos surgiu na História como um simulacro tupiniquim da Vendeia francesa, que se levantou em armas contra a República. Ao contrário da Vendeia, contudo, em que os nobres e o clero comandaram a resistência, no Brasil foram eles que chamaram a polícia. Não por adesão à ideologia republicana, mas por vassalagem tradicional aos governantes… republicanos.

O massacre de Canudos, contudo, exatamente por servir não à instauração da modernidade, mas antes à perpetuação das relações tradicionais de paternalismo e tolerância ameaçadas pela ortodoxia religiosa dos seguidores do Conselheiro – que considerava satânicas a República e as instituições modernas, como o casamento civil – não foi mais além. Eliminou-se um bastião de tradicionalismo ultra-ortodoxo para perpetuar uma tolerância exigida pela tradição cultural. Curiosamente, foi em 1969, com os militares mais uma vez no poder, que as ruínas de Canudos foram cobertas pelas águas de uma barragem.

O novo equilíbrio de forças da República, com as autoridades locais tradicionais dos estados mais ricos recuperando o poder que temiam lhes fosse arrancado pelo Imperador burguês deposto, tendo sido afastados os perigos da ortodoxia católica – primeiro da Princesa, depois dos canudenses – não durou muito. No Rio Grande do Sul, o positivismo castilhista, continuado em Borges de Medeiros, havia criado uma adaptação moderno-tradicional alternativa, diversa da presente no restante do país. O surgimento dos gaúchos no plano da política nacional, com a ascensão de Getúlio, mais uma vez pelos braços do Exército (cabe lembrar que grande parte do oficialato do Exército sempre foi de origem gaúcha), levou ao surgimento de ainda outro projeto de modernização, em muitos aspectos semelhante ao posteriormente levado a cabo pelos militares a partir de 1964.

O diferencial, contudo, é o personalismo caudilhesco (outra forma tradicional de autoridade) de Getúlio. Ao mesmo tempo em que aumentava tremendamente a centralização do poder, eliminando as autonomias estaduais tradicionais, e fomentava a industrialização, fazia-se ver como “pai dos pobres”, figura de modelo tradicional. Ao contrário de Hitler ou Stálin, ele não se fazia passar pelo protótipo do “novo homem [nacional-]socialista”, mas assumia, sem pejo, a função de grande patriarca desta casa aumentada que é o país.

O Estado aumentava, modernamente, a sua área de atuação, com regulações centralizadas e outros mecanismos modernos de eliminação de relações tradicionais. Isto ocorria, contudo, de forma a preservar, ou ao menos possibilitar a preservação, de algumas relações tradicionais.

Os empregados domésticos, por exemplo – pertencentes ao reino da casa, não da rua – estavam isentos das regulações trabalhistas getulistas, copiadas do fascismo italiano. A própria legislação penal getulista (ainda em vigor) parte do pressuposto não escrito de que o criminoso apreendido seria surrado pela polícia.

O centralismo com roupagem tradicional de Getúlio conquistou-lhe a inimizade das demais forças modernas em ação, levando os castilhistas e os paulistas a unir-se na Revolução Constitucionalista de 1932, que buscava substituir o Pai dos Pobres por uma Constituição impessoal, atacando frontalmente a cultura tradicional e visando a plena modernização do país. Cabe observar que era o momento histórico do auge da modernidade, quando o pensamento moderno parecia vitorioso em todo o mundo nas suas formas comunista, nazifascista e capitalista. Era a época em que se acreditava que a modernidade chegara para ficar, como indica a expressão nazifascista do “Reich de mil anos”.

A derrota dos paulistas em 1932, contudo, impediu esta segunda, e última, chance de implantação pela força da modernidade no país. Persistiu o voluntarismo caudilhesco getulista, com uma breve interrupção após o fim da Segunda Guerra, quando o oficialato ainda mais modernizado pelo convívio com os americanos no campo de batalha retirou brevemente Getúlio do poder. Rapidamente, no entanto, ele voltou nos braços de seus “filhos”, a população de visão tradicional que o percebia como monarca paternal.

Mesmo com todas estas ressalvas, no entanto, a ação modernizadora de Getúlio levou à primeira participação impessoal das classes mais baixas em processos políticos. Não como atores, mas como objetos; o mesmo povo – diante de cujo “pasmo geral”, segundo Scantimburgo, a República fora proclamada – viu-se titular de direitos trabalhistas.

A legislação trabalhista fascista é um dos mecanismos mais eficientes do desmanche do sistema tradicional de lealdades pessoais que prevalece na cultura brasileira, ao premiar o que tradicionalmente seria percebido como infidelidade do empregado ao patrão e desincentivar a proteção deste àquele, sua obrigação tradicional.

O surgimento de outros atores políticos coletivos e impessoais, os sindicatos, subiu à cabeça do descendente político de Getúlio, o grande fazendeiro, igualmente gaúcho, João Goulart. Com o apoio deles e orientado pela extrema-esquerda revolucionária, já em ação armada e política desde o final da década anterior, Jango tentou instituir pela força uma modernização da sociedade.

A luta europeia entre as duas vertentes mais importantes da modernidade em seu auge, o nazi-fascismo e o comunismo, havia sido vencida por este com apoio da terceira vertente, o capitalismo. O mundo dividiu-se entre a esfera controlada pela vertente capitalista da modernidade e a esfera controlada pela vertente comunista. A chamada Guerra Fria entre os EUA e a URSS desenrolava-se em disputas locais em que os lados em conflito – no mais das vezes ambos tradicionais – eram apoiados pelas superpotências. No Brasil, a ação política e paramilitar do comunismo visava a instauração de uma ditadura do proletariado, apoiando-se no recente sucesso da Revolução em Cuba; a ascensão de Jango ao poder foi a oportunidade de ouro para os comunistas de modernizar a sociedade de cima para baixo, tendo conquistado, na prática, o governo de modo pacífico.

Como previsível, os comunistas eram igualmente oriundos das mesmas classes médias urbanas, as únicas a ter algum protagonismo político; como disse Jabor, “descobrimos que não havia massas proletárias. Achávamos que íamos lutar contra fascistas e yankees e fomos vencidos por nossas tias”.

E, mais uma vez, o Exército, único ator realmente moderno da cena política, entrou em ação para preservar a ordem tradicional com o contragolpe de 1964. Sua ação foi resposta à enorme mobilização em defesa do modo de vida tradicional tornada visível nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que reuniram as maiores multidões da história do país, proporcionalmente à população. A ação modernizadora abrupta de João Goulart, decididamente, não era bem vinda por quem não fizesse parte dos pequenos grupos de extrema-esquerda que o usavam como instrumento.

A persistência dos movimentos comunistas armados, todavia, fez com que esta intervenção militar persistisse, dando ocasião à implantação de um projeto alternativo de modernização do país. Retomando como tecnocracia o desenvolvimentismo de seus inimigos políticos Getúlio e JK, atiraram-se os militares em um projeto de transformação econômica da sociedade, assegurando energia elétrica (que veio a proporcionar amplo acesso a outra forma de modernização da sociedade, a televisão) e transportes e buscando fomentar a industrialização do país. Este modelo gerencial, contudo, deixou de lado propositadamente o cuidado com as ciências humanas, levando à dominação das universidades pelos mesmos comunistas que os militares seguidamente derrotavam na batalha armada.

A origem burguesa dos integrantes dos grupos armados comunistas, todavia, fez com que surgisse às claras um aspecto tradicional ainda presente na legislação penal: pela primeira vez, filhos de gente importante eram presos e, como sempre se havia feito com os membros das classes menos favorecidas, apanhavam da polícia. É a “tortura nos porões da ditadura”, na verdade apenas a até então inaudita aplicação a burgueses da prática policial usualmente dirigida a pretos pobres, não sendo de modo algum novidade introduzida pelos militares.

Com a ascensão dos torturados ao poder, na redemocratização – aliás feita com o auxílio da tradicionalíssima Lei de Anistia, que deixou de lado todas as noções ideológicas para perdoar os atos de ambos os lados da guerra interna entre a vertente positivista e a vertente comunista da elite brasileira –, surgiram os movimentos de direitos humanos, que na prática buscam aplicar a todos os criminosos o tratamento previsto no texto da lei, antes privilégio dos mais favorecidos.

Esta ação modernizadora, contudo, foi percebida pela população como negação da punição para-legal dos pequenos criminosos, que vitimam preferencialmente os mais pobres, por não ter sido implantado concomitantemente algum sistema moderno de controle da criminalidade.

A ação do Estado – logo da modernidade – só é percebida positivamente nos programas assistencialistas, por sua vez lidos em uma chave tradicional e personalista: é o dinheiro que o Lula dá, é o cursinho do prefeito…

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Ao mesmo tempo, no resto do mundo, a modernidade se esboroçoa, sendo substituída pelo seu corolário lógico, a pós-modernidade, mais propriamente chamada hipermodernidade, que nega as grandes narrativas (comunista, capitalista, etc.) do auge da modernidade. Afinal, se não se sabe se o próximo existe, não há sentido algum em achar que se possa entender, quanto mais adotar, suas ideias. A desconstrução social hipermoderna, ao negar a ordem exógena internalizada nos países modernos, vem acabando com o apoio que eles prestavam aos movimentos modernizadores do Brasil. Na América Latina, persiste no Foro de São Paulo uma versão suburbana da antiga esfera soviética, financiada pelo petróleo venezuelano da versão “bolivariana” de Magnus Maximus que por lá reina, sonhando com uma forma de modernidade que não é mais possível há mais de meio século.

Esta tentativa de modernização tardia, contudo, enfrenta ao mesmo tempo a força do pensamento tradicional dominante, que permite que seu discurso seja hegemônico na rua enquanto o nega em casa, e a força dissolvente da hipermodernidade, que bota no mesmo saco das demandas modernas algumas causas consideradas aberrantes pela população tradicional, como a legalização do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a legalização das drogas recreativas.

A autoridade percebida do governo, assim, diminui a olhos vistos. A hegemonia gramscista, efetivamente conquistada ao dominar o sistema de ensino e a mídia, confinou-se ao discurso pseudomoderno da rua, afetando o pensamento tradicional da casa apenas como fator de anomia. Cada vez mais, os mecanismos de defesa firmemente implantados no modo de pensar luso-brasileiro entram em ação, tratando os governantes como se tratam os tios idosos queridos, porém caducos: eles são amados e respeitados, mas não obedecidos. A legislação é cada vez mais ignorada, e até mesmo iniciativas de vigilantismo – na cultura brasileira, que valoriza acima de tudo a tranquilidade e a ausência de conflitos abertos, uma opção derradeira e desesperada – vêm se tornando cada vez mais comuns. A certeza da irrelevância faz com que leis cada vez mais delirantes sejam promulgadas.

A manutenção da ordem social, assim, recai, neste início de milênio, muito mais fortemente sobre as estruturas tradicionais. A grandiloquência dos planos modernizadores do Estado só faz com que ele perca cada vez mais a relevância junto à população. A busca por formalização dos pequenos negócios, por exemplo, que ainda tinha alguma força vinte ou trinta anos atrás, foi simplesmente deixada de lado. A retirada coletiva da esfera de influência, sempre decrescente, do Estado se dá pari passu com as tentativas da modernidade tardia de introduzir a ação estatal em todas as esferas. Mesmo a classe média pseudomoderna, à qual vêm aderindo muitos filhos da classes mais baixas graças à multiplicação de faculdades e concursos públicos, vem se tornando cada vez menos moderna, até mesmo no discurso.

Ao contrário do que ocorria nas gerações anteriores, não há nesta população uma esperança de tornar-se parte efetiva da elite que toma decisões políticas; ao contrário, o processo político-eleitoral é percebido como irrelevante.

Comparado ao processo em curso nos países em que a modernização foi efetiva e o pensamento moderno introjetado, a situação do Brasil é invejável. Enquanto os EUA se transformam numa ditadura e a Inglaterra e a França se desfazem em conflitos étnicos, com uma crescente presença da tradição (nada tolerante) muçulmana como ator político e social, em uma anomia revelada cruamente nas estatísticas e noticiários, o Brasil tem uma rede de segurança por baixo da corda cada vez mais bamba da modernidade em dissolução. A ordem social, no Brasil, não é nem nunca foi a ordem exógena da modernidade, sim uma ordem endógena oriunda dos costumes e da moral judaico-cristã. A dissolução da ordem exógena, que leva ao caos quando – como nos países modernos – ela é a única existente, no Brasil leva apenas à irrelevância do Estado e à aceitação maior da ordem endógena, com a criação de mecanismos de apoio mútuo, como as denominações protestantes das favelas cariocas, verdadeira maçonaria dos pobres.

Aqui não há que temer o fim da modernidade; ela sempre foi só para inglês ver.

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Tendo em vista este panorama de derrocada generalizada de uma modernidade que jamais penetrou no tecido social brasileiro, podemos examinar a situação atual e tentar discernir o que poderia ajudar a evitar ao máximo as convulsões sociais que atravessam todo processo de fim de civilização. Temos a sorte de estar em situação relativamente semelhante à da atual Irlanda quando do fim do Império Romano: temos acesso pleno aos bens da civilização que se acaba, sem que estejamos sujeitos ao grosso dos estragos provocados pelos seus estertores finais.

Os mecanismos de coesão social nas instâncias mais básicas da sociedade nos proporcionam os instrumentos de resolução pacífica de conflitos que a nossa cultura tradicional requer. A inexorável perda de relevância do Estado como ator social leva-o, contudo, a tentar impor pela força o que não é mais socialmente demandado. Este é um fenômeno universal, que podemos reconhecer nas perseguições de Juliano Apóstata, nas queimas de “bruxas” do Renascimento, etc. Ao perceber que o poder de fato se esvai como areia entre os dedos, o detentor deste poder aperta mais a mão.

Na nossa sociedade, este poder é tremendamente reduzido pela visão tradicional que anima todos os seus integrantes: por mais que seja proibida a pirataria de músicas e permitido legalmente o incesto, é muito mais provável que haja ação policial contra um incestuoso que contra um copiador de músicas. O próprio policial que – forçado pelas circunstâncias – venha a indiciar um “pirata” provavelmente ouve no celular músicas copiadas “ilegalmente”.

A força do discurso moderno, no entanto, persiste por ele ainda ser percebido como o discurso educado e palatável, o único que pode ser proferido em público. Neste ano eleitoral, como em qualquer outro, fomos todos submetidos a pontificações sobre como o papel do vereador é aprovar leis, não distribuir dentaduras. E os vereadores, evidentemente, continuaram a distribuir dentaduras, pois este é o seu verdadeiro papel. As leis são “pra inglês ver”.

Uma forma de minorar os sofrimentos da transição e assegurar que ela seja o mais pacífica possível é apontar que o rei está nu; assumir, publicamente, os valores tradicionais, para que seja ainda mais dificultada a ação anômica da modernidade agonizante. Só lhe resta, na prática, o terreno do discurso; é hora de afirmar a plural tolerância da nossa tradição.

 

  • Fonte: Revista Dicta & Contradicta nº 10.

 


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