Apologética

O Celibato e o Sacerdócio

Written by Alessandro Lima

Os ataques fundamentalistas sobre o celibato clerical vêm em um número de diferentes formas – nem todas compatíveis entre si. Quase não há outro assunto acerca do qual existam tantas confusões diferentes.

A primeira e mais básica confusão é pensar o celibato clerical como um dogma ou uma doutrina – uma parte central e irreformável da fé, crida pelos católicos por vir de Jesus e dos apóstolos. Desta maneira, alguns fundamentalistas fazem uma grande problemática com a referência bíblica à sogra de Pedro (Marcos 1,30), aparentemente supondo que, se os católicos pelo menos soubessem que Pedro era casado, eles não poderiam considerar Pedro como o primeiro Papa. Novamente, as linhas de tempo fundamentalistas das “invenções católicas” (uma forma literária popular) atribui o “celibato clerical obrigatório” a este ou aquele ano na história da Igreja, como se antes desse requisito a Igreja não pudesse ser católica.

Esses fundamentalistas frequentemente são surpreendidos ao saber que mesmo hoje o celibato não é regra para todos os padres católicos. De fato, para católicos de rito oriental, padres casados são a norma, bem como são para os cristãos ortodoxos e orientais.

Mesmo nas igrejas orientais, por outro lado, sempre houve algumas restrições no matrimônio e ordenação. Ainda que homens esposados possam se tornar padres, padres não esposados não podem se esposar, e padres esposados, se viúvos, não podem reesposar. Além do mais, há uma antiga disciplina oriental de escolher bispos das classes de monges celibatários, assim seus bispos são todos não esposados.

A tradição na Igreja ocidental ou de rito latino tem sido tanto para padres quanto para bispos de fazer votos de celibato, uma regra que tem firmemente tomado lugar desde o início da Idade Média. Mesmo hoje, por outro lado, exceções são feitas. Por exemplo, existem padres de rito latino esposados que são convertidos do Luteranismo ou Episcopalismo.

Como essas variações e exceções indicam, o celibato clerical não é um dogma imutável, mas uma regra de disciplina. O fato de que Pedro era esposado não é mais contrário à Fé católica do que o fato de que o pastor da igreja católica maronita mais próxima seja esposado.

 

O Casamento É Obrigatório?

 

Outra confusão fundamentalista bem diferente é a noção de que o celibato é antibíblico, ou mesmo inatural. Todo homem, argumenta-se, deve obedecer à injunção “Frutificai e multiplicai-vos” (Gn 1,28); e Paulo manda que “cada homem tenha a sua mulher e cada mulher, o seu marido” (I Cor 7,2). É ainda alegado que o celibato de alguma maneira “causa” ou pelo menos está relacionado à alta incidência de comportamento sexual ilícito ou perversão.

Tudo isso é falso. Embora a maioria das pessoas em algum ponto de suas vidas sejam chamadas ao estado esposado, a vocação do celibato é explicitamente defendida – bem como praticada – tanto por Jesus quanto por Paulo.

Assim, longe de “mandar” o casamento em I Coríntios 7, naquele mesmo capítulo Paulo na verdade aprova o celibato àqueles capazes: “Aos solteiros e às viúvas, digo que lhes é bom se permanecerem assim, como eu. Mas, se não podem guardar a continência, casem-se. É melhor casar do que abrasar-se.” (7,8-9)

É somente por causa desta “tentação à imoralidade” (7,2) que Paulo dá o ensinamento sobre cada homem e mulher ter um cônjuge e dar um ao outro seus “direitos conjugais” (7,3); ele especificamente esclarece: “Isto digo como concessão, não como ordem. Pois quereria que todos fossem como eu; mas cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele.” (7,6-7, ênfase adicionada)

Paulo mesmo prefere o celibato ao casamento: “Não estás casado? Não procures mulher. Mas, se queres casar-te, não pecas; assim como a jovem que se casa não peca. Todavia, padecerão a tribulação da carne; e eu quisera poupar-vos… O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa. A mesma diferença existe com a mulher solteira ou a virgem. Aquela que não é casada cuida das coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito; mas a casada cuida das coisas do mundo, procurando agradar ao marido.” (7,27-34)

A conclusão de Paulo: aquele que casa a sua filha faz bem; e aquele que não a casa, faz ainda melhor. (7,38)

Paulo não foi o primeiro apóstolo a concluir que o celibato é, em certo sentido, “melhor” do que o matrimônio. Depois do ensinamento de Jesus em Mateus 19 sobre divórcio e o reesposar, os discípulos exclamaram “Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!” (Mt 19,10). Esta observação levou ao ensinamento de Jesus sobre o valor do celibato “por causa do reino”:

Nem todos são capazes de compreender o sentido desta palavra, mas somente aqueles a quem foi dado. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda.” (Mt 19,11-12)

Note que este tipo de celibato “por causa do reino” é um dom, um chamado que não é garantido a todos, ou mesmo à maioria das pessoas, mas é garantido a alguns. Outras pessoas são chamadas a se esposar. É verdade que muitas vezes indivíduos de ambas as vocações ficam aquém das exigências de seu estado, mas isto não diminui nem a vocação, nem significa que os indivíduos em questão não foram “realmente chamados” àquela vocação. O pecado de um padre não prova necessariamente que ele nunca deva ter feito um voto de celibato, tampouco o pecado de um homem ou mulher esposado prova que ele ou ela nunca deveriam ter se esposado. É-nos possível ficar aquém do nosso próprio verdadeiro chamado.

O celibato não é nem inatural nem antibíblico. “Frutificai e multiplicai-vos” não é imposto a cada indivíduo; ou melhor, é um preceito geral à raça humana. Senão cada homem e mulher solteiro em idade para se esposar estaria num estado de pecado por permanecer solteiro, e Jesus e Paulo permaneceriam culpados por advogar o pecado e cometê-lo.

 

“O Marido de Uma Única Mulher”

 

Outro argumento fundamentalista relacionado ao último é que o matrimônio é obrigatório para os líderes da Igreja. Porque Paulo diz que o bispo deve ser “o marido de uma única mulher” e “deve ser homem que saiba dirigir bem a própria casa, e cujos filhos lhe obedeçam e o respeitem. Pois, se alguém não sabe dirigir bem a própria casa, como poderá dirigir bem a Igreja de Deus?” (I Tm 3,2; 4-5). Isso significa, eles argumentam, que somente um homem que demonstravelmente cuidou de uma família é apto a cuidar da Igreja de Deus; um homem solteiro, implica-se, é de alguma maneira inexperiente ou inexperto.

Esta interpretação conduz a absurdidades óbvias. Por um, se “o marido de uma única mulher” realmente significasse que um bispo tivesse que ser esposado, então pela mesma lógica “mantendo seus filhos submissos e respeitosos de todo modo” significaria que ele tinha que ter filhos. Maridos sem filhos (ou mesmo pais de somente um filho, visto que Paulo usa o plural) não seriam qualificados.

De fato, seguindo este estilo de interpretação à sua absurdidade final, visto que Paulo fala de bispos satisfazendo estas exigências (não de tê-las satisfeito, ou de candidatos para bispo satisfazê-las), seguir-se-ia que um bispo ordenado cuja mulher ou crianças morressem se tornaria desqualificado para o ministério! Claramente, esse literalismo excessivo deve ser rejeitado.

A teoria de que os líderes da Igreja devem ser esposados também contradiz o fato óbvio de que o próprio Paulo, um eminente líder da Igreja, era solteiro e feliz por ser assim. A menos que Paulo fosse um hipócrita, ele poderia duramente ter imposto uma exigência aos bispos a qual ele mesmo não satisfez. Considere também as implicações concernentes à atitude positiva de Paulo perante o celibato em I Coríntios 7: os esposados têm ansiedades mundanas e interesses divididos; entretanto somente eles são qualificados a serem bispos; enquanto que os não esposados têm devoção de solteiro ao Senhor, entretanto são barrados do ministério!

A sugestão de que o homem solteiro é de alguma maneira inexperiente ou inexperto é igualmente absurda. Cada vocação tem seus próprios desafios: o celibato deve ser um exercício de “autocontrole” (I Cor 7,9); o marido deve amar e cuidar de sua mulher desinteressadamente (Ef 5,25); e o pai deve elevar seus filhos bem (I Tm 3,4). Todo homem deve satisfazer o padrão de Paulo de “dirigir bem a própria casa”, mesmo que a sua “casa” seja somente ele próprio. De algum modo, o homem celibatário casto encontra um padrão mais alto do que o respeitável homem de família.

Claramente, o ponto da exigência de Paulo de que o bispo seja “o marido de uma única mulher” não é que ele deva ter uma única mulher, mas que ele deva ter somente uma mulher. Expresso ao contrário, Paulo está dizendo que um bispo não deve ter filhos desregrados ou indisciplinados (não que ele deva ter filhos os quais sejam bem comportados), e não deve ser esposado mais do que uma vez (não que ele deva ser casado).

A verdade é que precisamente aqueles que unicamente “cuidam das coisas do Senhor” (I Cor 7,32), aqueles a quem foi dado o “renunciar o matrimônio por causa do reino” (Mt 19,12), que são idealmente apropriados para seguir os passos daqueles que tem “deixado tudo” para seguir a Cristo (cf Mt 19,27) – o chamado do clero e religiosos consagrados (isto é, frades e freiras).

Desta maneira, Paulo advertiu Timóteo, um bispo jovem, que aqueles chamados a serem “soldados” de Cristo devem evitar “a vida civil”. “Participa dos sofrimentos como bom soldado de Jesus Cristo. Ao alistar-se no exército, ninguém se deixará envolver pelas questões da vida civil, se quiser satisfazer a quem o alistou no regimento.” (II Tm 2,3-4). À luz dos comentários de Paulo em I Cor 7 sobre as vantagens do celibato, casamento e família claramente se destacam com essa “vida civil”.

Um exemplo do celibato ministerial também pode ser visto no Antigo Testamento. O profeta Jeremias, como parte de seu ministério profético, foi proibido de tomar uma mulher: “Javé enviou-me esta palavra: Não te cases com mulher nenhuma, nem tenhas filhos ou filhas neste lugar.” (Jr 16,1-2). Claro, isso é diferente do celibato clerical católico, o qual não é divinamente ordenado; entretanto o precedente divino também sustenta a legitimidade da intuição humana.

 

Proibido de Esposar?

 

Entretanto nenhuma dessas passagens nos dá um exemplo do celibato humanamente obrigado. O celibato de Jeremias foi obrigatório, mas foi do Senhor. O comentário de Paulo a Timóteo sobre “a vida civil” é somente uma admoestação geral, não um mandamento específico; e mesmo em I Cor 7 Paulo qualifica a sua forte aprovação do celibato adicionando “Digo isto para o vosso bem, não para armar uma cilada; simplesmente para que façais o que é mais nobre e possais permanecer sem distração junto do Senhor.” (7,35).

Isso nos traz à última linha de ataque fundamentalista: que, exigindo de pelo menos alguns de seus clérigos e religiosos não se esposarem, a Igreja Católica cai sob a condenação de Paulo em I Timóteo 4,3 contra os apóstatas que “proíbem o matrimônio”.

De fato, a Igreja Católica não proíbe ninguém de se esposar. De ninguém é exigido fazer um voto de celibato; aqueles que fazem, o fazem voluntariamente. Eles “renunciam o matrimônio” (Mt 19,12); ninguém lhos proíbe. Nenhum católico que não deseje fazer tal voto não precisa, e é quase sempre livre para se esposar com a bênção da Igreja. A Igreja simplesmente elege candidatos ao sacerdócio (ou, nos ritos ocidentais, para o episcopado) dentre aqueles que voluntariamente renunciam o matrimônio.

Mas há precedente escritural para esta prática de restringir membros de um grupo àqueles que tomam os votos de celibato voluntariamente? Sim. Paulo, escrevendo uma vez mais a Timóteo, menciona uma ordem de viúvas comprometidas a não recasar (I Tm 5,9-16); em conselho especial: “Não admitas viúvas jovens, porque, ao sentirem os atrativos da paixão contrária a Cristo, quererão casar-se outra vez e incorrerão na censura de ter violado o primeiro compromisso.” (5, 11-12)

Este “primeiro comprometimento” quebrado pelo reesposar não pode se referir a votos anteriores de matrimônio, porque Paulo não condena viúvas de se reesposarem (cf Rm 7,2-3). Isso só pode se referir a um voto de não se reesposar tomado pelas viúvas dentro deste grupo. Com efeito, foi uma forma antiga de mulheres religiosas – freiras no Novo Testamento. A Igreja no Novo Testamento incluía ordens com celibato obrigatório, assim como a Igreja Católica faz hoje.

Tais ordens não são, então, o que Paulo queria dizer quando avisou sobre “proibir de esposar”. Os verdadeiros culpados são as muitas seitas gnósticas através das épocas que denunciaram o matrimônio, o sexo e o corpo como intrinsecamente maus. Alguns hereges antigos se ajustam a esta descrição, como os albigenses e cátaros medievais (que, ironicamente, alguns escritores anticatólicos admiram em ignorância, aparentemente puramente porque insistiam em usar sua própria tradução vernacular da Bíblia; ver folheto Catholic Inventions da Catholic Answers).

 

A Dignidade do Celibato e do Matrimônio

 

A maioria dos católicos se esposam, e todos os católicos são ensinados a venerar o matrimônio como uma instituição sagrada – um sacramento, uma ação de Deus sobre nossas almas; uma das coisas mais sagradas que encontramos nesta vida.

De fato, é precisamente a sacralidade do matrimônio que faz o celibato precioso, porque somente o que é bom e santo em si mesmo pode ser dado a Deus como um sacrifício. Assim como o jejum pressupõe a bondade da comida, o celibato pressupõe a bondade do matrimônio. Menosprezar o celibato, portanto, é debilitar o matrimônio em si mesmo – como os antigos Padres apontaram.

O celibato também é uma instituição de afirmação de vida. No Antigo Testamento, onde o celibato era quase desconhecido, os sem filhos eram frequentemente desprezados pelos outros; somente através de filhos, sentia-se, alguém adquiria valor. Renunciando o matrimônio, o celibato afirma o valor intrínseco de cada vida humana em si mesma, independentemente da descendência.

Finalmente, o celibato é um sinal escatológico à Igreja, um viver no presente do celibato universal do céu: “Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu.” (Mt 22,30)

 

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