• Autor: Anônimo
  • Fonte: A Catholic Response Inc. (http://users.binary.net/polycarp)
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “Para que a genuinidade da vossa fé, mais preciosa que o ouro, que embora perecível, seja provada pelo fogo” (1Pedro 1,7).

* * *

Um outro ensino comumente incompreendido da Igreja diz respeito ao Purgatório. O Purgatório não é uma “segunda chance” para as almas condenadas se arrependerem. Ao invés disso, é um estado de limpeza e purificação para as almas destinadas ao céu [=salvas]. O Purgatório também não é um meio de se ganhar o caminho para o céu, mas um presente de Deus que nos prepara para vê-Lo face a face. Mesmo que não seja explicitamente referido pelo nome, a Bíblia faz alusão [ao Purgatório], especialmente em termos de fogo purificador.

A palavra “purgatório” está relacionada ao verbo “purificar”, que significa “limpeza, purificação”. De acordo com o Catecismo da Igreja Católica (CCC):

  • “Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu. A Igreja denomina ‘Purgatório’ esta purificação final dos eleitos, que é completamente diferente do castigo dos condenados” (CIC 1030-1031).

Somente as almas salvas (aquelas que morrem na amizade de Deus) podem passar pelo Purgatório com vistas ao Céu. Para entender melhor o Purgatório, à luz do sacrifício redentor de Cristo, precisamos primeiramente focar nas consequências do pecado:

Através do batismo e da fé (cf. Marcos 16,16), tornamo-nos amigos de Deus e recebemos a graça santificadora (o privilégio da vida eterna). Tudo isso é possível pela redenção de Cristo por nós. Infelizmente, o pecado muito grave (o pecado mortal) mata a nossa amizade com Deus. Ao cometermos voluntariamente o pecado mortal, rejeitamos a Deus e perdemos a graça santificadora (cf. Tito 1,16). [Apesar disso,] o sacrifício de Cristo na cruz ainda pode resgatar a nossa amizade com Deus, no entanto devemos nos arrepender e buscar o perdão de Deus através do Sacramento da Reconciliação (confissão). [Por outro lado,] se não nos arrependermos e morrermos neste estado, sem a graça, sofreremos a perda [irreparável] da vida eterna; essa perda é a punição eterna (Inferno, cf. Mateus 25,46). O Inferno não é o castigo de um Deus vingativo, mas a consequência natural de rejeitarmos a Deus, Fonte da Alegria e da Vida. A nossa redenção não interfere no nosso livre arbítrio, de modo que podemos rejeitar Nosso Senhor através de pecados graves (cf. Hebreus 10,26-27).

Pois bem: nem todo pecado é mortal (cf. 1João 5,17). Alguns pecados não são graves o suficiente para matar a nossa amizade com Deus, mas ainda assim são prejudiciais para nós e para os nossos próximos. A mancha (por exemplo, o escândalo) causada por nosso pecado precisa de correção. Essa correção é um castigo temporal (cf. Hebreus 12,5-11). Podemos ser corrigidos e limpos através da penitência pessoal na Terra ou mais tarde no Purgatório, graças ao nosso Redentor Jesus Cristo.

Jesus, no Evangelho, fala sobre essa correção – e, indiretamente, do Purgatório – no final da parábola sobre o perdão:

  • “E, indignado, o seu senhor o entregou aos carcereiros, até que pagasse toda a sua dívida. Assim vos fará também meu Pai celestial, se de coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas” (Mateus 18,34-35).

Nesta passagem, não há menção de Deus punindo pecadores muito graves, mas apenas aqueles que pecam por não perdoar os outros. Também o castigo mencionado aqui não é eterno como o Inferno (cf. Marcos 9,47-48), mas apenas temporário, “até que pague toda a sua dívida”.

O Purgatório é um estado temporário para as almas em estado de amizade com Deus (isto é, salvas), que precisam ser purificadas dos maus efeitos, manchas, escândalos e apegos (atração pelo pecado) que ainda lhes restam dos pecados mortais perdoados e dos pecados veniais menos graves. Tais almas contaminadas, embora salvas, não podem entrar no Céu diretamente. Como afirma a Bíblia: “Mas nada impuro entrará nele (=Céu)” (cf. Apocalipse 21,27). Essas almas precisam ser purgadas de toda “impureza”, não importa quão leve seja, antes de ver Deus face a face (cf. Apocalipse 22,3-5). Com efeito, todas as almas do Purgatório virão a ingressar no Céu.

São Paulo faz alusão a isso, em termos de fogo, na sua Epístola aos Coríntios:

  • “E se alguém contrói sobre este fundamento um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade, o Dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual foi a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou permanecer, esse receberá a recompensa; se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” (1Coríntios 3,12-15).

Nossas obras edificadas em Cristo serão testadas. Trabalhos inferiores (“madeira, feno e palha”) serão purgados pelo “fogo”; apenas os de “ouro, prata e pedras preciosas” sobreviverão [diretamente] para o Céu. A cláusula “sofrerá perda” implica dificuldades e punições temporárias, ainda que ele seja salvo.

São Pedro, em sua epístola, também nos lembra que a genuinidade da nossa fé “é provada pelo fogo” (1Pedro 1,7).

Pois bem: alguns cristãos objetam a doutrina do Purgatório citando o ladrão arrependido no Evangelho:

  • “E [o ladrão] disse a Jesus: ‘Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino’. E disse-lhe Jesus: ‘Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso'” (Lucas 23,42-43).

Segundo esses, uma vez que Jesus prometeu a esse pecador arrependido que este estaria com Ele no “Paraíso” naquele mesmo dia, então não há necessidade do Purgatório. Esta argumentação tem várias falhas:

Primeiro, Cristo pode ter concedido a esse pecador arrependido em particular o que a Igreja chama de “indulgência plenária”: a remissão total do castigo temporal devido aos pecados já perdoados.

Em segundo lugar, Cristo pode ter reconhecido que o sofrimento do ladrão na cruz era penitência pessoal suficiente para purificar sua alma.

No entanto, um ponto mais interessante é que Jesus, após a Sua morte, não foi imediatamente para o Céu. Segundo a Epístola de São Pedro:

  • “Pois também Cristo padeceu uma vez pelos pecados (…) Na verdade, mortificado na carne, mas vivificado pelo Espírito (…) foi e pregou aos espíritos na prisão, os quais noutro tempo foram rebeldes” (1Pedro 3,18-20).

Com efeito, imediatamente após Sua morte, Jesus “foi e pregou aos espíritos na prisão”. Ora, essa “prisão” certamente não é o Céu, nem pode ser o Inferno, já que as almas no Inferno não podem se beneficiar da pregação de Cristo. Logo, trata-se de um terceiro estado. Talvez o ladrão arrependido tenha se juntado a Cristo naquele mesmo dia; e em comparação com o Inferno, o Purgatório pode corretamente ser descrito como Paraíso.

Outros podem se opor [ao Purgatório] afirmando que o sangue de Cristo “nos purifica de todo o pecado” (cf. 1João 1,7). Ora, isso é verdade, mas o Seu sacrifício de redenção pode ser aplicado de diferentes maneiras, como através do batismo, da confissão, da oração… e uma outra maneira seria o Purgatório. Sabão e água podem ser suficientes para limpar o corpo; no entanto, ambos podem ser aplicados de diferentes maneiras: banho de assento, banho de esponja, banho de chuveiro…

A Igreja nos encoraja a orarmos pelos falecidos, pois eles podem estar no Purgatório, precisando das nossas orações. Orar pelos mortos é bastante bíblico. No Livro dos Macabeus, encontrado no Antigo Testamento Católico e Ortodoxo, Judas Macabeus faz uma coleta para uma oferta pelo pecado dos seus homens que morreram em batalha:

  • “Pois, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo orar por eles. (…) Eis por que ele pediu um sacrifício expiatório: para que os mortos fossem livres de suas faltas” (2Macabeus 12,44.46).

São Paulo também faz uma breve oração por Onesíforo [falecido] e sua família:

  • “Que o Senhor conceda misericórdia à família de Onesíforo (…) O Senhor lhe conceda que naquele dia encontre misericórdia diante do Senhor” (2Timóteo 1,16.18).

São Paulo, vivo ou morto, intercede (medeia) a Deus (cf. 1Timóteo 2,1-5).

Na Bíblia, São Paulo escreve sobre um fogo purificador que irá purificar nossas obras “naquele Dia”. São Pedro nos lembra que nossa fé será refinada e testada pelo fogo. Em outras partes da Bíblia, a ação do Espírito Santo é descrita como fogo: “Ele te batizará com o Espírito Santo e com fogo” (cf. Lucas 3,16). Segundo o místico espanhol São João da Cruz, o fogo do Purgatório é o amor de Deus purificando nossa alma em preparação para a visão beatífica final: a união celeste com Deus (cf. Apocalipse 22,3-5), “porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hebreus 12,29).

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