Baseando-se na análise de Dom Estêvão Tavares Bettencourt OSB, NÃO É RECOMENDADO o livro:

Queiruga, Andrés Torres – “REPENSAR A RESSURREIÇÃODiferença cristã na continuidade das religiões e da cultura“, Ed. Paulinas, São Paulo, 2005

Contra toda a Tradição:

REPENSAR A RESSURREIÇÃODiferença cristã na continuidade das religiões e da cultura“, por Andrés Torres Queiruga, Ed. Paulinas, São Paulo, 2005

Em síntese: O autor pretende reformular o anúncio da ressurreição de Jesus em linguagem moderna; nega, pois, a ressurreição do Senhor em termos sensíveis e afirma que Jesus foi ressuscitado como todos os justos do Antigo Testamento, ou seja, de modo invisível, logo após a morte.

– Tal teoria fere a fé católica, que professa o túmulo vazio e as aparições sensíveis de Jesus aos discípulos. São Paulo afirma que a ressurreição corporal de Jesus é a pedra de toque do Evangelho; é a recriação do homem, que o pecado condenou à morte corporal.

*** O autor do livro é doutor em Teologia e Filosofia; leciona Filosofia da Religião na Universidade de Santiago de Compostela (Espanha). Apresenta ao público um livro “revolucionário”, pois nega a ressurreição corpórea de Jesus tal como São Paulo e a Tradição sempre a entenderam. A seguir, proporemos as grandes linhas do pensamento do autor; ao que se seguirá um comentário.

1. A tese do livro

Eis os principais traços do pensamento de Queiruga:

1.1) É preciso reformular em linguagem moderna a tese clássica da ressurreição de Jesus: “cada nova situação cultural exige que se interprete novamente a ressurreição de Jesus… É hora de deixar para trás os últimos escolhos do cristianismo pré-moderno” (2a orelha).

1.2) O autor professa o monismo antropológico, que ele julga ser bíblico e segundo o qual corpo e alma não se distinguem entre si. Ver p. 174: “a antropologia bíblica, com seu caráter unitário”.

1.3) Sendo Deus o Deus dos vivos, Ele ressuscitava os justos logo após a morte desde os remotos tempos do Antigo Testamento. Queiruga professa “a primazia da ressurreição de Jesus não como começo cronológico, mas como revelação plena da superação da morte, superação essa que o Deus dos vivos estava e está realizando desde sempre” (p. 188).

1.4) Cristo ressuscitou logo após a sua morte na Cruz: “A ressurreição acontece na própria cruz onde Cristo consuma a sua vida e a sua obra (Jo 19, 30), sendo elevado sobre a terra como sinal da sua exaltação na Glória de Deus” (p. 177).

1.5) Conseqüentemente os relatos do Novo Testamento sobre o sepulcro vazio e as aparições do Ressuscitado são fictícias, sem valor histórico.

1.6) Para distinguir da ressurreição corporal visível a ressurreição invisível, Queiruga distingue entre carne (sarx) e corpo (soma). Ressuscitaria a sarx dando identidade pessoal ao Ressuscitado invisível, e não o soma (corpo), evitando-se assim o materialismo grosseiro: “A ênfase tradicional da ressurreição da carne, explicável e até admirável com base nos pressupostos antropológicos dentro dos quais foi formulada, é assim direcionada para a sua significação profunda e decisiva: a acentuação da identidade pessoal. Ao mesmo tempo, evita-se o perigo de evocar fantasmas imaginativos anacrônicos, que fariam da ressurreição uma crença verdadeiramente absurda. Algo que já São Paulo tratou de prevenir, falando de ‘corpo espiritual’ (alma pneumática: 1Cor 15, 44) e repreendendo energicamente como ‘insensato’ (afron, ‘sem mente’: 1Cor 15, 36) aquele que se empenha em uma continuidade material. De fato, tudo indica que sua postura obedece a um grande – e naquela cultura seguramente muito ousado – esforço reflexivo para manter juntos os dois extremos: a realidade da ressurreição e seu caráter trans­cendente e não-empírico” (p. 194).

1.7) Em suma, o autor com grande erudição procura explanar sua tese, que muitas vezes encontra resistência nos textos do próprio Novo Testamento. Eis uma passagem que sintetiza bem o seu pensamento: “Quando confessamos que Deus ressuscitou Jesus da morte, não estamos dizendo que Deus passou, então, a ressuscitar os mortos, mas que – como acontecia com a filiação – em Jesus se realiza com uma plenitude única o que o ‘Deus não de mortos, mas de vivos’ (Mc 12, 27) estava realizando desde a morte do primeiro homem e da primeira mulher, de seus primeiros filhos e filhas. Também para elas e para eles, morrer era ser ressuscitado pelo Deus que, criando-os por amor, não os abandona ao poder da morte. O verdadeiramente novum na experiência cristã é o fato de que a intensidade única da vida de Jesus e o profundo drama de sua morte abriram os olhos para compreender em toda a sua força, radicalidade e atualidade esse amor ressuscitador de Deus” (p. 192).

Pergunta-se agora:

2. Que dizer?

Proporemos sete observações:

2.1) É justificado o desejo de exprimir as verdades da fé em linguagem acessível ao mundo de hoje. Mas isto há de ser feito de modo que não altere o significado dessas verdades. Ora no caso em foco a expressão dada à ressurreição de Jesus modifica o artigo de fé, que professa a ressurreição empírica, ferindo em cheio a fé católica, como se dirá adiante com base em 1Cor 15, 12-17. Não há dúvida, em nossos dias a opinião pública é pouco inclinada a aceitar ressurreição de mortos. Isto, porém, não quer dizer que se deve adaptar a fé às categorias do pensamento moderno. Já São Paulo dizia que a fé é loucura para os gregos e escândalo para os judeus (1Cor 1, 23).

2.2) A Bíblia não professa algum sistema de antropologia; nunca, porém, foi monista, pois mesmo os mais antigos judeus admitiam, após a morte, os refaim (núcleo da personalidade) no Cheol e o cadáver no túmulo da família (cf. Gn 25, 8; 37, 33-35). Em Mt 10, 28 aparece nitidamente a distinção entre corpo e alma. Esta distinção não implica dualismo (como se a matéria fosse por si mesma ou ontologicamente má, e o espírito bom), a distinção entre corpo e alma constitui dualidade (complementação harmoniosa) e não dualismo.

2.3) A sobrevivência dos seres humanos após a morte no Antigo Testamento não implica que estivessem ressuscitados; o núcleo da personalidade estava adormecido e separado do seu corpo, de modo que carece de todo fundamento dizer que Deus ressuscitava os mortos antes de Cristo, dando-lhes um corpo imperceptível ou sarx (carne).

2.4) Não há fundamento algum para dizer que Cristo ressuscitou na Cruz tomando um corpo invisível. Importa sumamente à mensagem cristã que Jesus ressuscitou como novo Adão, ou seja, naquela mesma matéria corpórea que foi sujeito do pecado no início da história; a carne que pecou tornou-se instrumento da Redenção e, glorificada, foi feita o termo final da obra de Cristo Restaurador. Com outras palavras ainda: a reconciliação do homem pecador com Deus não se fez mediante um perdão divino proferido friamente à distância, mas realizou-se pela recapitulação; o segundo Adão recapitulou o primeiro homem, nascendo, trabalhando, morrendo e ressuscitando num corpo verdadeiro. Este é o cerne da mensagem cristã, de tal modo que São Paulo escreve em 1Cor 15, 12-17:  “…se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo quando de fato não ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam, pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou, e, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados“.

Sendo a ressurreição dos corpos um tema que a razão humana não atinge por si mesma, é nos documentos da fé que se deve procurar saber o momento em que ela se dará.. Os autores sagrados são explícitos, ao colocar a ressurreição no final da história. Cristo ressuscitou como primícias na sua época; os seus discípulos ressuscitarão quando ele voltar para a história. Diz o Apóstolo em 1Cor 15, 22s: “Assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida. Cada um, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda“.

2.5)     Os relatos de aparições do Ressuscitado não são mera projeção da fantasia dos Apóstolos pretensamente movidos pelo desejo e a esperança de rever o Mestre (segundo Renan, a expectativa costuma produzir o seu objeto numa alucinação visual).

– Na verdade os discípulos perderam o ânimo quando viram Jesus “fracassar” no fim da vida e retiraram-se para a Galiléia, donde eram oriundos, com exceção de São João. Por isto experimentaram dificuldades para crer (Mt 28, 17; Mc 16, 13s; Lc 24, 41); Tomé chegou a pedir provas palpáveis da ressurreição (Jo 20, 24-27). Deu-se um fenômeno eloqüente e objetivo que levou os Apóstolos a render-se à evidência dos fatos: os discípulos, impregnados de sua premissas judaicas, nunca teriam chegado por si mesmos à noção de um Messias que pela Cruz e a ressurreição salvaria Israel (ver o desapontamento dos discípulos de Emaús em Lc 24, 13-32). Verdade é que as aparições do Ressuscitado não se concatenam facilmente em ordem cronológica. Todas, porém, colocam em relevo o papel das mulheres – o que é surpreendente ou mesmo chocante em textos de origem judaica; este traço, por mais negativo que pareça, vem a ser altamente positivo, pois é tido pela crítica como critério de historicidade de tais relatos; estes como estão nos Evangelhos não podem ter sido mera projeção da fantasia dos discípulos. O fato da ressurreição é, outrossim, confirmado pela pregação de São Paulo, que refere, além das aparições aos Apóstolos, “a aparição a mais de quinhentos irmãos, dos quais a maior parte ainda vive” (cf. 1Cor 15, 18) … É de notar que o Apóstolo queria incutir a noção de ressurreição corporal de Cristo no sentido convencional da palavra, pois tinha em vista destinatários que repudiavam a materialidade como sendo algo intrinsecamente mau.

2.6) É arbitrária a distinção entre sarx e soma, sendo sarx (carne em grego) o designativo do corpo invisível em que todos haveriam de ressuscitar logo após a morte. A raiz da distinção é o fato de que a língua hebraica carecia de vocábulo para dizer: “corpo”; utilizava então o vocábulo basar (= sarx) em tal sentido. Conseqüentemente ficaram na língua teológica grega dois vocábulos para dizer “corpo”: soma e sarx. – Nos escritos paulinos sarx tem diversas acepções:

– designa a matéria corporal, que no homem se distingue do espírito; 1Cor 15, 39; Lc 24, 39; Ap 12, 26;

– designa também o que há de fraco e perecível na criatura humana: Rm 3, 20; Gl 2, 16; 1Cor 1, 29;

– designa a sede das paixões e do pecado: Rm 7, 5. 14. 18. 25.

Em parte alguma, porém, o vocábulo sarx aparece como designativo da matéria de uma ressurreição invisível.

2.7)      Em suma, o livro de Queiruga, com sua vasta erudição, pode impressionar o leitor desavisado, mas não convence a quem reflete, por dois motivos:

a) os argumentos aduzidos a partir da lingüística, da história antiga, da filosofia são fracos e não conseguem superar a clássica interpretação dada aos textos do Novo Testamento. São inspirados por preconceitos ou pela premissa de que é necessário encontrar um sentido de “ressurreição” condizente com o pensamento moderno racionalista.

b) O assunto não é da alçada da filosofia ou da razão apenas, mas é, antes do mais, objeto de fé. Portanto os critérios para elucidá-lo hão de ser depreendidos das fontes da fé, ou seja, da Palavra de Jesus que acompanha o povo cristão através dos séculos e é autenticamente transmitida pelo magistério da Igreja. Para a Igreja, baseada em São Paulo (1Cor 15, 12-17) a ressurreição do corpo que pecou e morreu, é central; Cristo é o segundo Adão, que recria o homem na sua realidade concreta.

A fé cristã poderá, por vezes, parecer loucura e escândalo, mas será sempre a Sabedoria de Deus portadora de salvação para quantos a aceitam.

Dom Estêvão Tavares Bettencourt OSB


Sobre o tema sugerimos também a leitura complementar: Resposta de Massimo Borghesi (professor de Filosofia Moral da Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Perúgia – Itália) a Andrés Torres Queiruga, publicada na revista “30Dias, na Igreja e no Mundo“, Ano XXVI, No. 2/3, 2008, nas páginas 58 a 66, ou no site da Revista 30Dias, indo ao link: http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=17462

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