[Leitor autorizou a publicação de seu nome no site] Nome do leitor: Mário Rigotti Filho
Cidade/UF: Sorocaba/SP
Religião: Católica

Mensagem
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Gostaria de esclarecer uma dúvida: se antes de Jesus ninguém subiu ao Céu, creio não ser razoável que Moisés e Elias estivessem em algum lugar diferente do Céu e aparecer no monte Tabor, num momento único em que o Pai fala com seu Filho na presença deles.

Assim pergunto: estavam no Céu ou não?

Outra pergunta: há alguma evidência que São Paulo tenha matado algum cristão com suas próprias mãos, antes de sua conversão? Creio que não, mas por quê alguns padres insistem em dizer isto?

Agradeço qualquer ajuda que V. possam me dar.

A paz de Jesus!

RESPOSTA:

Caríssimo Mário Rigotti,

Pax et Bonum!

Pedimos-te perdão pela demora em responder-lhe, agradecemos-te pela confiança que depositastes em nosso Apostolado e mais ainda pela paciência com que esperastes nossa resposta.

Com respeito a tua dúvida, é certo que Santo Elias e São Moisés são estavam no Céu, pois “ninguém jamais subiu ao Céu a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem” (João 3,13), conforme afirma Nosso Senhor mesmo. Antes dele, nenhum outro subiu ao Céu, pois é Ele que abre as portas do Céu à humanidade, portas que estavam fechadas pelo pecado (cf. Catecismo da Igreja Católica, n.661). Após Ele, os que foram justos antes Dele adentram no Céu; a Virgem Maria Santíssima, por sua santidade singular, Imaculada que era de todo pecado, se torna a primeira partícipe da Ressurreição de Cristo e é elevada aos Céus em Corpo e alma ao fim de sua vida na terra.

Se antes de Cristo as portas do Céu estavam fechadas aos homens, ninguém pode, pois ter subido até lá. Assim, pois, santo Elias não podia estar no Céu, conforme muito bem concluístes. Também não poderia estar no inferno, pois era homem justo e santo. Para onde, portanto, levou Elias a carruagem de fogo que o arrebatou, conforme a misteriosa descrição bíblica: “Eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo os separou um do outro e Elias subiu ao céu num turbilhão” (II Reis 2,11)?

Não há um consenso entre os exegetas e comentadores sobre o lugar para onde Elias foi levado. O consenso é somente de que não estava no Céu, pois suas portas estavam fechadas. Não ofendendo esta certeza, existem várias opiniões, da qual sobressaem-se quatro, enumeradas pelo exegeta Cornélio a Lápide (cf. Commentaria in Scripturam Sacram, In librum IV Regum, tomo IV).

A primeira é defendida por São Jerônimo e Santo Ambrósio, segundo a qual Santo Elias teria sido arrebatado até o céu realmente, mas não o céu dos bem-aventurados – cujas portas só seriam abertas por Cristo após sua subida. No céu, Elias viveria uma vida quase celestial, até que possa usufruir dos bens celestiais em plenitude após a subida de Cristo.

A segunda opinião é defendida por Santo Irineu, São Justino, Santo Isidoro de Sevilha e Santo Tomás, e afirma que Santo Elias foi levado ao lugar na terra onde antigamente ficava o Paraíso do Éden, onde viviam Adão e Eva antes do pecado; lá, Elias não viveria uma vida quase celestial, como na hipótese de São Jerônimo, mas apenas a não corrupção de seu corpo, que deve estar livre de qualquer envelhecimento até hoje.

A terceira opinião é de São Gregório Magno e é quase eco desta segunda. São Gregório defende não que Santo Elias tenha sido levado ao Paraíso do Éden, mas a algum lugar desconhecido da terra naquela época.

A quarta opinião é de São João Crisóstomo, Santo Agostinho, São Cipriano e Teodoreto de Ciro e se dá justamente pelo mistério que envolve o arrebatamento de Santo Elias: estes santos exegetas afirmam tão somente que o local para onde foi Elias (e Enoque e Moisés) é incerto.

Todas estas opiniões são aceitas pela Igreja, que não possui um juízo definitivo a respeito.

O grande exegeta Cornélio a Lápide afirma que ele está “nos átrios da Casa do Senhor”. Tradição certa na Igreja é que Santo Elias não morreu. Eu, particularmente, não consigo concluir para onde Santo Elias foi arrebatado, mas sei que não foi para o Céu dos bem-aventurados e que não morreu.

Parece haver consenso entre o exegetas e comentadores, e esta é uma tradição que permeia a Igreja há muito tempo, que Santo Elias não morreu e assiste do lugar de onde está (seja qual for este lugar) o desenrolar da história da Salvação, esperando o fim dos tempos, nos quais, imediatamente antes do Retorno de Cristo, deverá retornar também ele (Santo Elias mesmo), pregar o Evangelho de Deus e lutar contra o Anticristo. E logo depois Cristo voltará. Este retorno de Santo Elias será um retorno de Santo Elias realmente, dele mesmo, e não o aparecimento de alguém com o seu caráter e vigor, como o foi São João Batista, que possuía a mesma índole de Santo Elias, mas não era ele.

Sobre tua segunda dúvida, a respeito de São Paulo, não me consta que tenha matado algum cristão com as próprias mãos. Certo é que, antes de sua conversão, atuou ferozmente contra os cristãos e contribuiu diretamente para a morte de muitos deles, entre os quais o primeiro mártir, Santo Estevão, cujo apedrejamento foi Paulo que instigou. No contexto em que estava, isto é, encarregado de perseguir os cristãos e fariseu radical como era, é possível que tenha matado algum cristão, mas não nos é possível afirmar isto com certeza absoluta a partir das fontes históricas, dos Atos dos Apóstolos e de suas cartas.

Talvez alguns padres ao contarem isto (confesso que nunca ouvi algum deles falando) queiram mais salientar a perseguição que Paulo promovia antes de sua conversão e como atuou diretamente para a morte de muitos cristãos, do que o fato de ele supostamente ter matado um cristão com as próprias mãos.

Esperamos ter te ajudado.

Meu cordial abraço!

Atenciosamente,

Taiguara Fernandes de Sousa.

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