[Leitor autorizou a publicação de seu nome no site] Nome do leitor: Antonio Néri
Cidade/UF: Londrina – PR
Religião: Católica

Mensagem
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Amigos do “Veritatis Splendor”, não vos parece um grande mal e um dos grandes motivos do decréscimo da sacralidade em nossas missas, o fato da retirada do sacrário do altar-mor e o seu “exílio” nas laterais das igrejas?

Se o tabernáculo continuasse em sua posição primitiva, e se o sacerdote celebrasse “versus Deum”, não vos parece este, um arranjo pedagógico para os leigos sobre a importância ímpar da Eucaristia no culto católico?

Como poderemos ensinar as nossas crianças, que a Eucaristia é o cume e o ápice da vida da Igreja, se o sacrário, onde se custodia o Corpo, Sangue, Alma e Divindade do próprio Deus-humanado, não está posicionado nem no cume, nem no ápice, nem no centro da igreja?

Não será este um dos motivos, ou talvez o principal, pelo qual os católicos já não fazem a genuflexão ao entrar, já não guardam silêncio, nem decoro quando participam da missa ?

Se o culto católico é Cristocêntrico, o sacerdote celebrando “versus popoli” não estaria roubando o lugar que pertence unicamente a Deus, e tornando ele – à maneira dos protestantes – o ápice, o cume e o centro da celebração ?

Caro Antônio Néri,

Gostaríamos que nos escusasse pela demora na resposta. Somos leigos que, movidos pelo amor a Deus e a Igreja, nos empenhamos nesse Apostolado voluntário em meio a nossas atividades cotidianas. Obrigado pelo contato, e esperamos ajudá-lo. Vamos à sua mensagem.

Já abordamos o tema no seguinte artigo: https://www.veritatis.com.br/article/4337

De fato, o local em que fica o tabernáculo com as reservas Eucarísticas é extremamente importante na liturgia e na nossa compreensão da fé Católica. Afinal de contas, lá está Jesus, nosso Mestre e Senhor. Por isso, uma seção das Instruções Gerais do Missal Romano (IGMR) dedica-se exclusivamente a dispor sobre isso. Abaixo, transcrevemos as partes mais importantes concernentes à localização do sacrário:

314.     De acordo com a estrutura de cada igreja e os legítimos costumes locais, o Santíssimo Sacramento seja conservado num tabernáculo, colocado em lugar de honra da igreja, suficientemente amplo, visível, devidamente decorado e que favoreça a oração. (…)

315. Em razão do sinal é mais conveniente que no altar em que se celebra a Missa não haja tabernáculo onde se conserva a Santíssima Eucaristia.

É preferível, pois, a juízo do Bispo diocesano, colocar o tabernáculo:

a) no presbitério, fora do altar da celebração, na forma e no lugar mais convenientes, não estando excluído o altar antigo que não mais é usado para a celebração (n. 306);

b) ou também numa capela apropriada para a adoração e oração privada dos fiéis, que esteja organicamente ligada com a igreja e visível aos fiéis.

316. Conforme antiga tradição mantenha-se perenemente acesa uma lâmpada especial junto ao tabernáculo, alimentada por óleo ou cera, pela qual se indique e se honre a presença de Cristo.

Como se pode ver, a Instrução pede que o tabernáculo seja colocado “em lugar de honra da Igreja”, e que este local seja “visível”. Note-se que a questão está “a juízo do Bispo diocesano”. Porém, recomendam-se dois lugares: primeiro no presbitério, no local mais conveniente (portanto na parte principal e mais visível da Igreja). Em segundo lugar, em uma capela apropriada. Esse segundo local, ainda que não se encontrando na nave principal da Igreja, deverá estar “organicamente ligada com a Igreja e visível aos fiéis”. Igualmente um lugar de honra, portanto. É falso dizer que a Igreja tem recomendado expressamente a retirada dos sacrários do presbitério ou dos altares antigos (tridentinos), para que seja posto em uma capela lateral. Existe apenas a possibilidade, que ainda assim não é a primeiramente recomendada.

Em nenhum momento há a recomendação ou a permissão de colocar o tabernáculo em local “distante” e “sem visibilidade”. Se algum sacerdote ou bispo age assim, o faz contrariando as Instruções da Igreja.

De qualquer modo, é sempre salutar a continuada catequese para imbuir os fiéis de renovado amor e reverência para com as sagradas espécies. De nada adiantaria, por exemplo, colocar o sacrário no centro do presbitério, se não se catequizar os fiéis para a sacralidade ali presente. Os fiéis continuariam sem fazer a genuflexão e sem guardar o devido silêncio dos lugares sacros. Novamente, se algum sacerdote, além de não colocar as reservas Eucarísticas em local de honra, deixa continuadamente de levar os seus fiéis ao amor e veneração pela Eucaristia, de fato estará contribuindo para o decréscimo do sentimento de sacralidade reclamado por você.

Sobre a celebração “versus deum”, peço sua paciência para ler um trecho escrito pelo nosso Papa Bento XVI:

    Para o católico praticante normal, dois parecem ser os resultados mais evidentes da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II: o desaparecimento da língua latina e o altar orientado para o povo. Quem ler os textos conciliares poderá constatar, com espanto, que nem uma nem outra coisa se encontram neles desta forma.

(…)

     Sobre a orientação do altar para o povo, não há sequer uma palavra no texto conciliar. Ela é mencionada em instruções pós-conciliares. A mais importante delas é a Institutio generalis Missalis Romani, a Introdução Geral ao novo Missal Romano, de 1969, onde, no número 262, se lê: “O altar maior deve ser construído separado da parede, de modo a que se possa facilmente andar ao seu redor e celebrar, nele, olhando na direção do povo [versus populum]”. A introdução à nova edição do Missal Romano, de 2002, retomou esse texto à letra, mas, no final, acrescentou o seguinte: “Isso é desejável sempre que possível”. Esse acréscimo foi lido por muitos como um enrijecimento do texto de 1969, no sentido de que agora haveria uma obrigação geral de construir – “sempre que possível” – os altares voltados para o povo. Essa interpretação, porém, já havia sido repelida pela Congregação para o Culto Divino, que tem competência sobre a questão, em 25 de setembro de 2000, quando explicou que a palavra “expedit” [é desejável] não exprime uma obrigação, mas uma recomendação. A orientação física deveria – assim diz a Congregação – ser distinta da espiritual. Quando o sacerdote celebra versus populum, sua orientação espiritual deveria ser sempre versus Deum per Iesum Christum [para Deus, por meio de Jesus Cristo]. Sendo que ritos, sinais, símbolos e palavras nunca podem esgotar a realidade última do mistério da salvação, devem-se evitar posições unilaterais e absolutizantes a respeito dessa questão.(1)

(…)

Resumindo temos o seguinte: a celebração “versus deum” é historicamente mais utilizada pela Igreja, é mais recomendável e até mesmo “pedagógico” para leigos, sim, como você mesmo diz. Ela é possível tanto na Forma Ordinária (Missal de Paulo VI) quanto na Forma Extraordinária (Missal de S. Pio V). Bento XVI recentemente celebrou “versus deum” na Capela Sistina com o Missal de Paulo VI, por ocasião do Batismo do Senhor. Porém, a posição “versus populum” é também possível, ressaltando-se que “quando o sacerdote celebra versus populum, sua orientação espiritual deveria ser sempre versus Deum per Iesum Christum”. Para ajudar o sacerdote a lembrar-se sempre disso, pode-se colocar uma cruz mais destacada à sua frente, como está fazendo o Papa Bento XVI. Seu exemplo pode e deve ser seguido pelos sacerdotes. Celebrando “versus populum” o sacerdote somente se tornará “ápice, cume e centro da celebração”, no lugar de Deus, caso se deixar levar pelo orgulho e queira “aparecer” mais do que celebrar o Santo Sacrifício da Missa.

Leia mais em: http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=3510

Agradecemos novamente sua mensagem e pedimos suas orações.

Em Cristo,

NOTA:

(1)O texto do cardeal Joseph Ratzinger é o prefácio que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé escreveu ao livro de Uwe Michael Lang, “Conversi ad Dominum”. Zu Geschichte und Theologie der christlichen Gebetsrichtung, publicado no ano passado na Suíça pela Johannes Verlag Einsiedeln.

Uwe Michael Lang é membro do Oratório de São Filipe Néri, em Londres, estudou teologia em Viena e Oxford e publicou numerosos textos sobre temas patrísticos.

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