A teoria da democracia diz que é o povo que escolhe seus governantes. Mais ainda: o povo os escolheria entre representantes de diversos partidos, que proporiam soluções diferentes para os problemas da sociedade sem deixar de preservar seus valores essenciais, que todos respeitariam.

No Brasil, contudo, não é este o caso. Ao contrário: os valores essenciais têm o acordo de toda a sociedade, menos daqueles que deveriam representá-la (os políticos) e espelhá-la (a mídia). Com raríssimas exceções, a mídia prega unanimemente uma visão radicalmente revolucionária do mundo, num discurso alucinado que acaba sempre sendo repetido pelos políticos. Afinal, quem poderia se dar ao luxo de tornar-se alvo de uma campanha de mídia, de acusações absurdas que, em última instância, podem ser resumidas em concordar com o que pensam os eleitores?!

No fim das contas, assim, o que se tem é um samba de uma nota só no discurso político brasileiro; todos os partidos dizem a mesma coisa, variando apenas no entusiasmo com que concordam. Todos são a favor de tudo o que a mídia prega, e contra tudo com que os eleitores concordam.

É um fenômeno curiosíssimo, que só se perpetua devido às peculiaridades do sistema eleitoral brasileiro. Os partidos – cujos programas são peças de ficção, enfileirando lugares-comuns para satisfazer as exigências legais, e só – dependem de verbas e de tempo de propaganda, por sua vez dispensados proporcionalmente à parcela de poder que eles já têm. Assim se garante que não haja alternância e se dificulta a entrada de vozes novas. Os candidatos são forçados a pertencer a algum partido, e o voto de legenda faz com que a escolha de partido conte mais que a aprovação do eleitorado.

Este arremedo de democracia, na verdade, não tem por fim dar voz ao povo. Pelo contrário, seu objetivo é calar esta voz, como já pode ser percebido nesta etapa do processo revolucionário. Já começou uma campanha pela criminalização de opiniões divergentes da “verdade” única pregada pela mídia e pelos políticos; é uma continuação do processo de demonização do conservadorismo, em curso há algumas décadas nas escolas e faculdades. Em breve, as opiniões mais comuns entre a população, que teoricamente a democracia deveria representar, estarão fora da lei.

Passeatas do “orgulho gay” e das “vadias” tomam as ruas, e ai de quem protestar! A mera ideia de organizar uma passeata contra esta inversão de valores já daria calafrios de medo a qualquer um que dependa do voto. Não por não contar com apoio popular, mas por este ser perfeitamente irrelevante. Na democracia brasileira, o eleitor é quem menos importa.

A campanha midiática que seria promovida contra um candidato abertamente conservador jamais diria exatamente a razão de tanto ódio, mas deixaria claro que se trata de um monstro, de um agressor violento, de um chutador de gatinhos! Ela impediria que sua campanha saísse do chão, faria com que cessassem as contribuições e, talvez, pudesse mesmo levá-lo a ser punido judicialmente pelo crime de procurar representar quem o elege.

O noticiário político, que poderia deixar mais claro à população o processo em curso, na prática não existe. Existem, sim, notícias sobre escândalos, sobre políticos que recebem polpudas mesadas de Fulano ou Beltrano e CPIs compostas por bravos justiceiros… que pouco depois são pegos com a mão no mesmo pote. O objetivo da substituição do debate político pelo noticiário escandaloso é denegrir ainda mais os representantes populares, fazendo com que eles percebam claramente a necessidade de manter-se do lado da mídia. De, na prática, abandonar a população e seus valores.

Afinal, na democracia brasileira o inimigo é o povo.

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