• Autor: Anônimo
  • Fonte: A Catholic Response Inc. (http://users.binary.net/polycarp)
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “Aguardando a nossa abençoada esperança: o surgimento da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo, que se deu por nós para nos redimir de toda iniquidade” (Tito 2,13-14).

* * *

Para a imensa maioria dos cristãos católicos, a divindade de Cristo é um dado garantido. Hoje, porém, essa crença está sendo contestada, atacada e negada em várias frentes. Os Testemunhas de Jeová afirmam que Jesus era tão somente Miguel Arcanjo na forma humana, enquanto os Mórmons reduzem a Sua divindade, alegando que todos nós podemos ser deuses. Muitas seitas também negam que Cristo seja Deus. Até mesmo alguns teólogos desafiam seriamente esta crença tradicional. Outros ainda afirmam que Jesus não tinha conhecimento da Sua divindade, a não ser após Sua ressurreição.

Assumindo que os Evangelhos são, pelo menos, historicamente confiáveis, [vemos que] Jesus muitas vezes reivindicou ser Alguém muito especial. Em Marcos 2,28, Jesus afirma ser “o Senhor do sábado” (Êxodo 20,10). Ele também afirma ser “maior que o Profeta Jonas” (Mateus 12,41), “que o rei Salomão” (Mateus 12,42) e até “que o Templo” (Mateus 12,6). De acordo com Marcos 2,1-12, Jesus reivindica ter poder para perdoar pecados e realiza uma cura milagrosa para prová-lo. Os escribas se enfurecem porque creem que apenas Deus tem autoridade para perdoar pecados. Essas alegações são bem extraordinárias para alguém que é “humilde de coração” (Mateus 11,29).

Jesus, enquanto discutia com os escribas, faz ainda uma declaração interessante sobre Si mesmo e Abraão:

  • “Jesus respondeu-lhes: ‘Eu vos declaro solenemente: antes de Abraão vir a ser, EU SOU’. Ouvindo isto, eles pegaram pedras para atirá-las em Jesus” (João 8,58-59).

Jesus afirma ter existido antes de Abraão – algo impossível para um mero ser humano. Além disso, a afirmação soa gramaticalmente esquisita devido a um tenso desacordo; soaria melhor se Ele tivesse dito “EU ERA” ao invés de “EU SOU”. Mas o tempo presente empregado implica a existência eterna de Cristo como Deus.

E embora Jesus explicitamente não chame a Si mesmo de “Deus”, Ele se refere a Si mesmo por uma forma do nome de Deus. O significado completo da Sua declaração em João 8,58 é melhor compreendido em conexão com Êxodo 3,14. Em Êxodo, Deus revela o Seu nome a Moisés:

  • “Deus respondeu: ‘EU SOU QUEM SOU’. Então acrescentou: ‘Assim dirás aos israelitas: ‘EU SOU me enviou até vós'” (Êxodo 3,14).

O nome de Deus – YHWH (Yahweh) – se traduz como “EU SOU QUEM SOU” ou simplesmente “EU SOU”. Em João 8,24.58, Jesus está se referindo a Si mesmo com o nome de Deus. Os escribas O entendem como tal e respondem pegando pedras [para atirá-las] contra Ele. Eles queriam apedrejar Jesus por blasfêmia, por referindo-se a Si mesmo como Deus (cf. João 5,18).

Outras pessoas nos Evangelhos também testemunham a Sua divindade. Ainda antes do Seu nascimento, Ele é chamado de “Senhor”. Inspirada pelo Espírito Santo, Isabel cumprimenta Maria ainda grávida:

  • “Quem sou eu para que a mãe do meu Senhor venha até mim?” (Lucas 1,43).

Isabel refere-se a Maria como “a mãe do meu Senhor”. Em outros lugares, como em Lucas 1, o título “Senhor” refere-se a Deus, por exemplo: “um anjo do Senhor” (Lucas 1,11). Deve-se notar que o nome “YHWH”, sendo altamente sagrado, não podia ser pronunciado, de modo que os hebreus diziam [em seu lugar:] “Senhor”. Assim, esta passagem em Lucas sugere que Jesus era Deus enquanto estava no ventre de Maria. E também quando Jesus era criança, cf. Mateus 2,11. Se o Menino Jesus não fosse divino, essa passagem do Evangelho apresentaria a idolatria sob uma luz positiva. Mais tarde, Jesus até permite que as pessoas O adorem, como em João 9,38. Por fim, depois da ressurreição, Tomé saúda Jesus como “Meu Senhor e meu Deus” (João 20,28; cf. Salmo 35,23). Jesus confirma esta saudação sem qualquer hesitação, objeção ou correção. Como Mestre, Jesus seria obrigado a corrigir qualquer erro, especialmente um erro que implicava em blasfêmia.

De acordo com relatos seculares, os cristãos do século II adoravam Cristo como Deus. Os pagãos zombavam dos primeiros cristãos por adorarem um Deus crucificado. Segundo um grafite romano do século II, descoberto em 1856 no Palatino, um cristão é caricaturado por orar a uma figura crucificada. A legenda diz: “Alexamenos adora o seu deus”. Em 111 d.C., Plínio o Jovem escreveu sobre os cristãos numa carta ao Imperador Trajano:

  • “É costume, num dia fixo, reunir-se antes da luz do dia e recitar, por sua vez, certas palavras para Cristo como a um deus” (Plínio o Jovem, Epístola 97).

Pelo menos para os pagãos do século II, parecia-lhes que os cristãos consideravam Jesus como seu Deus.

Alguns podem se opor à divindade de Cristo citando versículos bíblicos referentes à Sua humanidade, por exemplo:

  • “Há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo homem” (1Timóteo 2,5).

Pois bem: deve-se entender que Jesus Cristo também é humano. Esse mistério é chamado de Encarnação: Deus se tornou homem (cf. Gálatas 4,4). Como escreve São Paulo:

  • “Em Cristo, a plenitude da Divindade reside na forma corporal” (Colossenses 2,9).

De acordo com o Tomo de Leão, segundo proclamado durante o Concílio de Calcedônia, em 451 d.C., Jesus é uma Pessoa divina com duas naturezas: uma natureza divina e uma natureza humana. Cristo é [verdadeiramente] Deus e homem.

Outros que se opõem à divindade de Cristo apontam para passagens do Evangelho que mostram a sua falta de conhecimento. Segundo eles, o Deus onisciente não precisaria questionar a multidão: “Quem tocou nas minhas vestes?” (Marcos 5,30) ou, durante a ressurreição de Lázaro, ao perguntar a Maria [irmã de Lázaro]: “Onde o colocaste?” (João 11,34). Em resposta à essas objeções, deve-se notar que tais perguntas são retóricas e não provam a ignorância de Cristo. Deus Pai não mostra ignorância quando pergunta a Adão: “Onde estás?” (Gênesis 3,9); ou a Caim: “Onde está Abel, teu irmão?” (Gênesis 4,9). Essas perguntas têm como objetivo atrair uma resposta do interlocutor. Um professor faz perguntas aos seus alunos não por ignorância, mas para testá-los ou ensinar-lhes uma lição.

Pois bem: um versículo [aparentemente] mais problemático acerca do conhecimento de Cristo no Dia do Juízo seria este:

  • “Mas a respeito daquele dia ou daquela hora, ninguém sabe: nem os Anjos do céu, nem o Filho, mas somente o Pai” (Marcos 13,32).

Porém, o Bispo Richard Challoner responde a esse versículo numa nota de rodapé da Bíblia de Douay-Rheims:

  • ‘Nem o filho’: Não que o Filho de Deus seja absolutamente ignorante sobre o dia do julgamento, mas que Ele não o conhece como nosso Mestre; isto é, Ele sabe que não é para nos ensinar, por não ser conveniente”.

Em outras palavras: Cristo conhecia o dia, mas não foi comissionado para nos contar. Alguns Padres da Igreja primitiva responderam a isso afirmando que Cristo conhecia o dia, mas não através da Sua humanidade. Para aqueles que estão interessados, este e outros versículos difíceis são discutidos em detalhes no livro “The Consciousness of Christ” [=”A Inconsciência de Cristo”], do Pe. William G. Most (Front Royal-VA: Christendom College Press, 1980).

Alguns ainda se opõem à divindade de Cristo afirmando que só há um [único] Deus: Deus Pai. Pois bem: é verdade que existe apenas um Deus; no entanto, Deus também é Santíssima Trindade: “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28,19). A Trindade são três pessoas em um Deus e não três deuses. Jesus Cristo é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade: Deus Filho. Segundo a Bíblia, “Deus é amor” (1João 4,16), mas para que o amor seja real, deve ser entre duas ou mais pessoas. Deus Pai e Deus Filho, sendo duas Pessoas de natureza divina (cf. João 10,30), Se amam. Este amor é tão real que é a terceira Pessoa: Deus Espírito Santo. Isso é análogo ao amor entre marido e mulher que resulta em um filho (mas, obviamente, sem tempo e sem sexo). Uma boa discussão sobre a Trindade pode ser encontrada no livro “Theology for Beginners” [=”Teologia para Principiantes”], de Frank J. Sheed (Ann Arbor-MI: Servant Books, 1981).

[Em suma:] No Evangelho, Jesus afirma ser uma pessoa extraordinariamente importante, mas também humilde. Jesus reivindica ainda a autoridade para perdoar pecados, isto é, ofensas contra Deus. Ele afirma ser “EU SOU”: uma forma do Nome de Deus (cf. João 8,24.58). Os escribas se enfurecem com as suas afirmações, enxergando-as como blasfêmia (cf. João 5,18; 10,30). Segundo o Evangelho, até os demônios (cf. Marcos 1,27) e a natureza (cf. Marcos 4,41) Lhe obedecem. As várias referências às fraquezas humanas de Cristo no Evangelho não anulam necessariamente a Sua divindade, mas são um mistério contido na Sua Encarnação. Como escreve São João: “No princípio era o Verbo (…) e o Verbo era Deus (…) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1,1.14).

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