Carlos Caso-Rosendi

A falsa “Teologia da Libertação”

A segunda metade do século XX, sobretudo nas suas últimas três décadas, assistiu a tentativas mais ou menos grosseiras de manipulação da figura de Jesus Cristo para apoiar modelos de vida, de sociedade e de ação política que pouco ou nada têm a ver com o Jesus da História e da Fé. Assim surgiu o Cristo cósmico ou esotérico da Nova Era, o Cristo “hippie” da geração de 1968 e o Cristo revolucionário da ala marxista da Teologia da Libertação.

Nas últimas décadas, muitos dentro e fora da Igreja tentaram promover a ideologia política esquerdista disfarçando-a com roupagem cristã. Dessa maneira, a fé cristã é reduzida a um instrumento para a libertação das classes operárias. Aqueles que apóiam a ideia de uma sociedade cristã supostamente comunista usam frequentemente textos extraídos das Sagradas Escrituras que, isolados do seu contexto, parecem apoiar a ideia de uma sociedade cristã onde não existe propriedade privada e onde as riquezas materiais são intrinsecamente más. Estas ideias e outras que compõem a Teologia da Libertação passam por cima da mensagem completa do Evangelho, reduzindo-o e privando-o de sua verdadeira mensagem libertadora.

A Doutrina Social da Igreja exorta à caridade para com aqueles menos afortunados e à uma justa distribuição das riquezas na socidade cristã. A Igreja vai além da mera exortação e pratica a caridade através de todos os meios ao seu alcance, o que pode ser facilmente comprovado pela cuidadosa observação da atividade internacional dos inúmeros grupos caritativos católicos sustentados pela Igreja. Estas atividades caritativas surgem a partir do coração da Igreja e são uma manifestação do seu espírito agindo livremente como imitação de Cristo, o qual viveu o seu ministério rodeado dos mais necessitados dentro o povo do seu tempo. Ao analisarmos as partes da Escritura citadas com maior frequência pelos propagadores da Teologia da Libertação, percebemos que nenhuma delas exorta à partilha obrigatória das riquezas, nem ao emprego da violência, nem tampouco à luta de classes:

“Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas vendiam-nas e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade” (Atos 4,34-35).

Esta prática comunitária da Igreja da antiga Jerusalém é certamente louvável. É de se supor que o incipiente número de cristãos nesses anos tornasse possível o justo partilhamento dos recursos do grupo. Sabemos também que aqueles que compartilhavam os seus bens o faziam de maneira voluntária. Em nenhum lugar encontramos a Bíblia aprovar o confisco da propriedade privada. Na Igreja primitiva, toda pessoa que ajudava os pobres o fazia livremente. Ninguém tomava as posses dos outros para entregá-las aos pobres. Fazer tal coisa seria visto como roubo, uma violação ao livre-arbítrio do indivíduo.

“Um certo homem chamado Ananias, de comum acordo com sua mulher Safira, vendeu um campo e, combinando com ela, reteve uma parte da quantia da venda. Levando apenas a outra parte, depositou-a aos pés dos apóstolos. Pedro, porém, disse: ‘Ananias, por que tomou conta Satanás do teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e enganasses acerca do valor do campo? Acaso não o podias conservar sem vendê-lo? E depois de vendido, não podias livremente dispor dessa quantia? Por que imaginaste isso em teu coração? Não foi aos homens que mentiste, mas a Deus’. Ao ouvir estas palavras, Ananias caiu morto. Apoderou-se grande terror de todos os que o ouviram. Uns moços retiraram-no dali, levaram-no para fora e o enterraram. Depois de umas três horas, entrou também sua mulher, nada sabendo do ocorrido. Pedro perguntou-lhe: ‘Dize-me, mulher. Foi por tanto que vendestes o vosso campo?’ Respondeu ela: ‘Sim, por esse preço’. Replicou Pedro: ‘Por que combinastes para pôr à prova o Espírito do Senhor? Estão ali à porta os pés daqueles que sepultaram teu marido. Hão de levar-te também a ti’. Imediatamente caiu aos seus pés e expirou. Entrando aqueles moços, acharam-na morta. Levaram-na para fora e a enterraram junto do seu marido” (Atos 5,1-10).

Um bom exemplo é o caso de Ananias e Safira, dois cristãos dessa época que pretenderam enganar o Apóstolo São Pedro retendo parte do dinheiro que haviam obtido com a venda de um campo. Observe-se que São Pedro os condena por mentir e por fazerem crer à Igreja que estavam entregando tudo, quando na verdade reservaram para si uma parte [do dinheiro]. O Apóstolo recorda-lhes que tinham a liberdade de reter para si o campo, o dinheiro da venda ou uma parte da sua totalidade, já que tinham todo o direito de fazer o que bem quisessem com a sua propriedade. No entanto, Ananias e Safira pretendiam que a comunidade os considerasse por bastante abnegados e generosos, buscando de fato a vã e passageira admiração dos homens e não o favor de Deus. Por suas ações, demonstraram não crer na presença do Espírito Santo na Igreja e foram condenados de maneira fulminante.

“Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: ‘Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me’. Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens” (Marcos 10,21-22).

O jovem rico se aproxima de Cristo mas não consegue renunciar às suas riquezas. Cristo sempre falou da liberdade individual para escolher o bom caminho ou para se afastar do mesmo. Ele sabia que a coerção – inclusive por bons motivos aparentes – viola a verdadeira natureza da humanidade. Deus nos criou com livre-arbítrio. É um dom que Ele nunca retira. O homem rico errou ao valorizar os bens materiais, colocando-os acima da chamada de Cristo. Esperamos que, em algum momento posterior, este jovem tenha tomado consciência do seu erro e seguido ao Senhor. Porém, tirar-lhe à força as suas posses seria uma grave violação da sua vontade (inclusive da sua própria pessoa) e Cristo nunca o teria feito. Isso não implica, como bem afirma a Doutrina Social da Igreja, que os governos não possam regular a economia, basicamente através de impostos ou meios semelhantes, para assegurar a assistência aos mais necessitados. Deus valoriza tanto o nosso livre-arbítrio que realmente esconde de nós o Seu Rosto neste mundo. Se tivéssemos uma percepção direta de Deus, deixaríamos de ser indivíduos livres e nos converteríamos em meros aduladores temerosos, intimidados pela presença onipotente do Todo-Poderoso.

“Deram ali uma ceia em sua honra. Marta servia e Lázaro era um dos convivas. Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de trair, disse: ‘Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres?’ Dizia isso não porque ele se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam. Jesus disse: ‘Deixai-a; ela guardou este perfume para o dia da minha sepultura. Pois sempre tereis convosco os pobres, mas a mim nem sempre me tereis'” (João 12,2-8).

Aqui vemos como Judas hipocritamente condena o presente que a pecadora confere a Jesus como gesto de arrependimento. Aqui São João nos adverte que o motivo real de Judas não era o amor pelos pobres mas a avareza. Do mesmo modo, muitos “revolucionários” da História recente têm usado as necessidades das pessoas como desculpa para alcançar o poder civil e, logo depois, esquecer completamente os pobres e os operários. Sabe-se muito bem que nos governos comunistas de Cuba, da União Soviética, dos países do Oriente Europeu e Coréia do Norte os pobres e os operários formam uma classe aparte e de nível mais baixo, que não desfruta da mesma qualidade de vida e liberdade de locomoção que os membros das burocracias governantes.

As únicas ocasiões em que a Bíblia apresenta pessoas privadas – justamente! – das suas posses é quando elas transgrediram alguma lei (Neemias 5,13; 2Crônicas 21,14; Esdras 10,8). Os regimes de força esquerdistas, ao contrário, parecem mostrar-se impacientes para violar a liberdade individual. Consideram virtuoso usar a força para arrebatar a propriedade privada e – supostamente – dá-la aos que possuem menos. No entanto, cabe perguntar: existe alguma virtude ou mérito em fazer aquilo que somos obrigados a fazer?

Jesus nunca foi comunista e muito menos guerrilheiro. Defendeu o amor ao próximo e a livre doação de bens particulares aos que passam por necessidade, como de fato a Igreja continua ensinando. Cristo não tomou à força a propriedade de ninguém, nem instituiu impostos, nem confiscou barcos de pesca ou granjas, mesmo ao aceitar a legitimidade dos impostos quando disse: “Dai a César o que é de César”.

Vale a pena reforçar que a Igreja Católica está profundamente comprometida em ajudar os pobres. Muitos de seus homens e mulheres são exemplos de santidade pelo serviço que prestaram aos necessitados, como, por exemplo, São Vicente de Paulo, Pierre Toussaint, São Martinho de Porres e Madre Teresa de Calcutá. Escola, hospitais, orfanatos, missões e abrigos católicos para os pobres encontram-se espalhados por todo o globo.

Atualmente, na África, onde a AIDS e os governos tirânicos têm provocado as mais severas e infelizes condições de vida sobre a terra, a Igreja Católica proporciona mais assistência social que qualquer outra instituição. E isto apesar de na África o número de muçulmanos superar o número de cristãos!

“Meus irmãos, na vossa fé em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, guardai-vos de toda consideração de pessoas. Suponde que entre na vossa reunião um homem com anel de ouro e ricos trajes, e entre também um pobre com trajes gastos; se atenderdes ao que está magnificamente trajado, e lhe disserdes: ‘Senta-te aqui, neste lugar de honra’, e disserdes ao pobre: ‘Fica ali de pé’, ou: ‘Senta-te aqui junto ao estrado dos meus pés’, não é verdade que fazeis distinção entre vós, e que sois juízes de pensamentos iníquos? Ouvi, meus caríssimos irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino prometido por Deus aos que o amam? Mas vós desprezastes o pobre! Não são porventura os ricos os que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais? Não blasfemam eles o belo nome que trazeis? Se cumprirdes a lei régia da Escritura: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’, sem dúvida fazeis bem. Mas se vos deixais levar por distinção de pessoas, cometeis uma falta e sereis condenados pela lei como transgressores” (Tiago 2,1-9).

O Apóstolo Tiago nos recorda que o próprio Deus tem preferido os fiéis pobres para premiá-los com a glória do seu Reino e lhes outorgou as riquezas da verdadeira fé. Isto era evidente para Tiago, o qual era o bispo responsável pelo pastoreio dos fiéis da Palestina. Ali, as classes dominantes eram formadas principalmente por aqueles que não tinham crido em Cristo; e os membros das classes mais humildes, os que tinham sido premiados com a graça divina da fé. É por isso que Tiago lhes recorda – aos presbíteros e a toda comunidade – que a preferência por pessoas ricas e influentes está em clara oposição ao favor de Deus pelos pobres. Observe-se que Tiago não condena os ricos por sua condição econômica, mas condena as distinções porque constituem uma falta de amor ao próximo.

“Falai, pois, de tal modo e de tal modo procedei, como se estivésseis para ser julgados pela lei da liberdade. Haverá juízo sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o julgamento. De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso esta fé poderá salvá-lo? Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: ‘Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará?’ Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma. Mas alguém dirá: ‘Tu tens fé, e eu tenho obras. Mostra-me a tua fé sem obras e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras'” (Tiago 2,12-18).

Tiago não poderia ser mais claro: a fé e a caridade prática seguem unidas.

“Vós, ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que sobre vós virão. Vossas riquezas apodreceram e vossas roupas foram comidas pela traça. Vosso ouro e vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e devorará vossas carnes como fogo. Entesourastes nos últimos dias! Eis que o salário, que defraudastes aos trabalhadores que ceifavam os vossos campos, clama, e seus gritos de ceifadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos. Tendes vivido em delícias e em dissoluções sobre a terra, e saciastes os vossos corações para o dia da matança! Condenastes e matastes o justo, e ele não vos resistiu” (Tiago 5,1-6).

Tiago nos revela também que as riquezas obtidas através da opressão, do crime e da injustiça não apenas se evaporam como também custarão a salvação àqueles que depositaram sua confiança nelas. Há alguns que utilizam esta passagem para condenar aqueles que obtêm suas riquezas trabalhando honestamente. Isto é um erro! O Apóstolo Tiago condena aqui o materialismo imoral que compartilham todos aqueles que empregam meios ilícitos para obter para si mesmos as riquezas deste mundo.

Tanto o que explora imoralmente aqueles que dependem dele pelo trabalho, como ainda o privilegiado por uma ditadura que vive às custas dos operários são igualmente culpáveis à vista de Deus, independente da orientação política que ostentam.

O burocrata que ascendeu a uma posição privilegiada com a desculpa de “servir aos operários” faz o mesmo que Judas Iscariotes: serve-se do tesouro da comunidade sob o pretexto de defendê-la. Os países nos quais o comunismo tomou o poder sempre produziram uma “nomenklatura”, um grupo de privilegiados que vive uma vida melhor que o resto da população.

A Igreja encontra-se radicalmente comprometida a favor da verdadeira justiça social: aquela que defende a dignidade, inclusive dos mais fracos entre nós – os pobres, os oprimidos, os não-nascidos e os idosos – e nos chama a cada um de nós a sermos protetores dos nossos irmãos. Entretanto, ela busca mudar o coração dos homens, não apenas a lista das suas propriedades, porque no dia em que o nosso mundo estiver habitado por mais e mais fiéis cristãos verdadeiros necessariamente será um mundo mais justo e humano.

Como observação final: quem pode negar que a imensa maioria dos cem milhões de inocentes assassinados pelos regimes totalitários nos últimos 100 anos foram precisamente os mais pobres?


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