OS PADRES APOSTÓLICOS E OS HISTORIADORES PROTESTANTES

Os Padres Apostólicos aprovavam o batismo por infusão?

Assim como há casos onde os Padres Apostólicos falam a favor do batismo por imersão, também nos falam sobre a infusão (e não contrariamente).

Comecemos pela Didaqué.

“Didaqué” é uma palavra grega que significa “Ensinamento”. O título completo da obra é “A Instrução do Senhor aos gentios através dos Doze Apóstolos”, ou, de forma resumida, “A Doutrina dos Doze Apóstolos”.

É considerada como um dos documentos mais importantes da Igreja primitiva. Ainda que não se saiba com exatidão a data de sua composição, alguns autores opinam que foi escrita entre os anos 50 e 70.

O que ensina este importante documento sobre o batismo nos primeiros anos da Igreja? Vejamos:

  • “Quanto ao batismo, batizai assim: depois de terdes ensinado o que precede, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, em água corrente; se não houver água corrente, batize-se em outra água. Se não puder ser em água fria, faça-se em água quente. Se não tiverdes o bastante, de uma ou de outra, derrama água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Antes do Batismo, jejuem: o batizante, o batizando e outras pessoas que puderem. Ao batizando, entretanto, mandarás jejuar um ou dois dias antes” (Didaqué 7,1-4).

Pois bem: a Didaqué nos mostra aqui que nos primeiros anos da Igreja o batismo já era aplicado por imersão e por infusão, sem problema nenhum. De modo que para os primeiros cristãos, o significado da palavra não estabelecia uma maneira fixa para a administração do sacramento, podendo este variar segundo as circunstâncias.

São Cipriano (ano 250), Bispo de Cartago, Santo e Mártir da Igreja, importante autor do Cristianismo primitivo, em seus diversos escritos, conservados em latim, nos informa que já nos primeiros anos da Igreja se batizava também por aspersão ou infusão, pois no caso dos doentes e agonizantes, a imersão se tornava impossível e o sacramento era então conferido por uma das outras formas. Isto era tão sabido que a infusão ou aspersão recebiam o nome de “batismo dos enfermos” (“baptimus clinicorum”). São Cipriano declara que esta forma é válida (Ep. 76).

São Justino Martír (100-168), em seus escritos, chama o batismo de “lavatório”, “banho”; inclusive, cita o Profeta Isaías, dando-nos a entender que o batismo implementado por São Justinho seguia a forma judaica, por aspersão.

  • “E também é dito no Profeta Isaías o modo como podiam se livrar dos pecados aqueles que, tendo pecado, se arrependeram: ‘Lavai-vos; tornai-vos puros; tirai as maldades das vossas; aprendei a fazer o bem’ [Isaías 1,16ss]. (…) Invoca-se sobre aquele que se determinou regenerar, e se arrependeu dos seus pecados, estando ele na água, o nome do Pai de todas as coisas e Senhor Deus, o único nome que invoca aquele que conduz a este lavatório aquele que há de ser lavado (…) Este banho é chamado ‘iluminação’, para dar a entender que são iluminados aqueles que aprendem estas coisas” (1ª Apologia 61).

Tertuliano (155-220) nos diz que não importa onde batizemos, seja um rio, um tanque ou através de um recipiente; e que tem o mesmo valor os batismos feitos por Pedro no rio Tibre quanto o que fez Felipe encontrando por acaso água no deserto. O importante é ter água para que sejam “lavados” (De Baptismo 13).

E o que dizem os historiadores protestantes sobre a forma do batismo nos primeiros anos da Igreja? Vamos ver então como os próprios historiadores protestantes reconhecem que já na Igreja primitiva, o batismo por infusão já era um costume:

  • “O batismo por imersão era em todas as partes o rito de iniciação da Igreja, não obstante já haver menção definida, no ano 120, de que o batismo por infusão já era um costume” (Jesse Lyman Hurlbut, “Historia de la Iglesia”, p. 41).
  • “Quanto ao método de batismo, é provável que a forma original fosse a imersão, total ou parcial. Nisto implicam passagens como Romanos 6,4 e Colossenses 2,12. As gravuras das catacumbas parecem indicar que a imersão nem sempre era completa. A evidência mais completa é a doutrina [da Didaqué]: ‘Se não puder ser em água fria, faça-se em água quente. Se não tiverdes o bastante, de uma ou de outra, derrama água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’. A infusão já era, portanto, uma forma reconhecida de batismo. Cipriano a apoiava cordialmente” (Williston Walker, “Historia de la Iglesia Cristiana”, p. 96).
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