Transmissão: Lista Tradição-Católica

Há trinta e cinco anos a Corte Suprema decidiu – no caso Roe vs. Wade – que as mulheres tinham direito de abortar sem a interferência governamental. Agora, no aniversário daquele acontecimento, os Estados Unidos possuem uma das políticas mais restritivas a propósito do aborto entre os países desenvolvidos.

Desde o caso Roe, a opinião pública norte-americana permaneceu relativamente estável e favorável ao aborto legal. As primeiras investidas para reverter o caso Roe sofreram amargas derrotas. Face a isso, o movimento contrário ao aborto mudou de tática. Não queriam proibir o aborto mas sim restringi-lo. Desviaram a atenção pública de amplo apoio ao aborto para uma forte restrição ao mesmo. Vinte anos atrás ser pró-vida era mal-visto. Atualmente é uma posição respeitável. Como isso sucedeu? Nos anos 70 os argumentos eram simples e polarizados: O aborto era visto como um assassinato ou como o direito de uma mulher controlar seu corpo. O feto, no entanto, permanecia quase que invisível.

O movimento pela livre-escolha permanecia na ofensiva, que taticamente mudou em 1989 do corpo da mulher para o tema de “quem decide” proposto pela NARAL Pró-livre escolha da América. Isso foi rapidamente suplantado pela questão apresentada pelos anti-abortistas para  que se olhasse sobre o que se decidia e não sobre quem estava decidindo.

A ciência facilitou a mudança do pêndulo. Imagens tridimensionais obtidas por ultras-som dos bebês no útero passaram a decorar os refrigeradores das famílias. Fetos passaram a ser operados. Bebês prematuros sobreviveram e tornaram-se mais saudáveis. Nossa atenção voltou-se para eles e nosso dever para com eles não podia ser descartado.

Essas tendências deram vantagens aos anti-abortistas, os quais souberam aproveitar ao máximo disso. Agora raramente se ouve falar, da parte deles, em assassinar bebês. Ao invés disso eles apresentam um desafio filosófico e político. As sociedades se preocupam, dizem eles, em expandir a inclusão na “comunidade humana”. Os que eram excluídos, tais como mulheres e minorias, atualmente são iguais. Por que não acolher o feto (que, afinal, somos nós) na nossa comunidade?

Os partidários do aborto tem atualmente muita dificuldade em tratar da questão, com a crescente visibilidade do feto. A estratégia preferida ainda é ignorá-lo e tentar reconduzir a temática para as mulheres. Algumas vezes isso nos faz parecer insensíveis, um tanto pragmáticas num mundo em  que o desejo de viver mais comunitariamente e “de afirmação pró-vida” é palpável.

Para algumas pessoas, os valores dos pró-livre escolha parecem insensíveis, ao desejar salvar baleias e as árvores, respeitar os direitos dos animais e combater a violência em todos os níveis. O Papa João Paulo II percebeu isso, e cunhou o termo “cultura da vida”. O Presidente Bush adotou-o e o slogan, por mais que isso nos custe admiti-lo, influenciou alguns corações e cabeças. Apoiar o aborto tornou-se difícil dentro desse contexto.

Ao mesmo tempo, as mulheres, para levar avante suas decisões, tiveram que enfrentar microscópios cada vez mais poderosos. A visão de mulheres forçadas a tomar decisões em fundos de quintal, como resultado de seus “erros”, foi substituída por questões difíceis, tais como por que as mulheres engravidam, posto que não querem ter bebês.

Nos últimos anos, o movimento anti-abortista obteve sucesso em divulgar diante do público os detalhes desagradáveis dos procedimentos abortistas, aumentando a crença de que o aborto é um assunto sério e que a sociedade deve se empenhar devidamente na questão. Os que são pró-livre escolha não conseguiram convencer nosso país de que apoiamos uma discussão pública a propósito das dimensões morais do aborto. Do mesmo modo, não convencemos as pessoas que somos nós que, na realidade, propiciamos às mulheres condições de evitar os abortos.

Encaremos a realidade: a negação da sexualidade feminina é uma constante histórica. Nossa proclamação de que se pode confiar nas mulheres cai em ouvidos moucos. E quando o movimento pró-escolha parece defender alguma decisão individual de aborto, ao invés do direito de tomar a decisão, isto também soa suspeito.

Se os valores pró-livre escolha podem reconquistar o campo moral, uma discussão genuína sobre tais desafios precisa ser enfrentada dentro do movimento. É inadequado evitar de tratar desse problema. Nossa defesa vigorosa do direito de escolha precisa ser acompanhada por uma maior abertura face ao verdadeiro conflito entre vida e escolha, entre direitos e responsabilidades. É o momento de uma reavaliação séria do que pensar sobre o aborto face a um mundo radicalmente mudado desde 1973.

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