• Autor: Martin J. Scott, sj
  • Fonte: Livro “Things Catholics Are Asked About” (1927) / Site “Una Fides, One Faith” (http://net2.netacc.net/~mafg)
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

Um senhor me disse, há algum tempo: “Padre, por que a sua Igreja é inflexível em relação ao divórcio? O senhor não percebe que a sua doutrina matrimonial mantém muitas pessoas afastadas da religião?” Minha resposta foi que as pessoas disseram exatamente o mesmo para Cristo nos seus dias. Depois, mostrei-lhe que a Igreja Católica não é mais inflexível ou mais ampla que o seu Fundador, Jesus Cristo: Sua Igreja não pode alterar mais os Seus ensinamentos do que um juiz pode alterar a Constituição ou uma decisão do Suprema Corte dos Estados Unidos.

Expliquei-lhe ainda que os ensinamentos da Igreja sobre o matrimônio não se originaram nela, mas sim em seu Fundador. Além disso, mostrei-lhe que a Igreja Católica não criou nenhuma doutrina, mas apenas ensinou o que Cristo a encarregou de ensinar. Passei a dizer-lhe que desde o início a Igreja Católica tem sido a depositária e guardiã dos ensinamentos de Cristo: é por isso que ela nunca muda; e é também por isso que as igrejas que não são Dele mudam. A verdade nunca muda. Cristo era a verdade. A Igreja que é Sua, ensina o que Ele ensinou. É por isso que a doutrina dela sobre o matrimônio é o que é: é de Deus. Como muitos rejeitaram Cristo – a própria Verdade -, porque Seus ensinamentos não estavam de acordo com os seus pontos de vista pessoais, então eles passaram a rejeitar a Sua Igreja porque ela não ensina o que eles querem crer. Mas “no grande Dia”, será o padrão de Cristo que prevalecerá, não o do mundo.

Depois que eu desenvolvi esse ponto, ele respondeu: “Isso basta para mim. Por que a Igreja não explica a sua posição ao público? As pessoas têm uma visão totalmente diferente dessa questão”. Antes de prosseguir, posso dizer que, como resultado dessa e de outras conversas semelhantes, esse senhor tornou-se católico.

Não há dúvida de que, quando a posição da Igreja sobre qualquer assunto é esclarecida para quem está de fora, eles se tornam católicos ou, pelo menos, deixam de lado sua hostilidade para com ela. A maioria das pessoas tem uma mente estreita e quando passam a ter os dados da questão, acabam julgando com razoabilidade. O problema atual em relação à Igreja é que os de fora não possuem os dados. Eles têm muitos dados pressupostos – o que é pior do que não ter nada -, mas, na verdade, o que eles têm são apenas distorções.

Como esta situação deve ser remediada? Você poderia dizer: sugerindo livros que os corrijam. Porém, eles não lerão livros, especialmente livros católicos. O que deve ser feito então? A melhor coisa a se fazer é usar as oportunidades de relação pessoal para fornecer-lhes noções corretas da Igreja e dos seus ensinamentos. Quase todas as pessoas que recebi na Igreja abordaram a questão da conversão como resultado de uma conversa casual que tiveram com um amigo ou conhecido católico.

Quando realmente conhecida, não há nada no mundo tão atraente e convincente quanto a Igreja Católica. A dificuldade é que muitos católicos não sabem como se expressar em relação à sua religião. É claro que isto não deve ser questionado. Muitas pessoas sabem uma coisa bem o suficiente para as suas próprias necessidades e satisfação, mas não conseguem transmitir o seu conhecimento para outras pessoas. Isso vale para todas as áreas [de conhecimento] da vida. Muitos cidadãos bons e patrióticos dos Estados Unidos sabem o suficiente sobre a Constituição para apreciá-la, respeitá-la e defendê-la, mas não conseguem explicá-la para satisfazer outras pessoas. É fácil entender de uma coisa, mas não é fácil colocar o assunto de maneira a fazer com que outras pessoas o entendam. Assim, o católico médio deve ser suficientemente instruído na Fé para ser capaz de transmitir uma ideia bem precisa dela para os que estão fora.

Muitas vezes um não-católico me diz: “Padre, qual é o problema do seu povo? Muitas vezes pergunto para eles por que fazem isto ou aquilo, por que creem em tal ou qual doutrina, e me respondem com um mero balançar de ombros”. Respondi que muitas vezes o motivo seria a timidez ou a suspeita de que a pergunta era feita com malícia. Também acrescentei que muitas pessoas não conseguem explicar o que é perfeitamente claro para elas mesmas. Para isso, evidenciei o fato de que apenas algumas dentre 100 pessoas conseguem oferecer alguma explicação racional da plataforma do partido político ao qual pertencem e, mesmo assim, possuem uma boa compreensão dela. Conhecer uma coisa e ser capaz de transmitir o conhecimento acerca dela são duas coisas bem diferentes.

No entanto, se alguém estiver realmente interessado em alguma coisa, procurará saber o suficiente para fazer com que interesse aos outros. Nós, católicos, temos um interesse vital na nossa religião. Sabemos que quase toda hostilidade para conosco e para com a nossa Igreja vem do fanatismo baseado principalmente em mal-entendidos. Fora da autoproteção (para não dizer lealdade), devemos nos equipar para encontrarmos todos os que chegam fazendo perguntas sobre assuntos relacionados à nossa fé. Deveríamos ter um conhecimento conversacional dos principais pontos de diferença entre eles e nós. Se todo católico pudesse dar uma explicação satisfatória da sua crença e práticas, estaria prestando um verdadeiro serviço à sua religião.

Os católicos devem ser Cruzados de Cristo! Nos dias da cavalaria, os mais fortes defensores do trono eram aqueles homens valentes que formavam a guarda do rei no campo de batalha e em todos os lugares perigosos. Esses cavaleiros encontraram glória na defesa do reino. Os católicos instruídos devem ser um corpo eleito de filhos leais da Santa Madre Igreja. Eles são, na maioria das vezes, profissionais liberais, homens de negócios e artesãos qualificados. Como um corpo, estão acima da inteligência comum. Eles estão fazendo um trabalho esplêndido para a Igreja e o Estado em atividades sociais e civis. Muitos também estão divulgando noções corretas de religião e moralidade, mas muito poucos estão trabalhando pessoalmente para Deus e Sua Igreja, o que eles poderiam fazer se se tornassem bem informados sobre assuntos católicos e usassem das suas oportunidades para esclarecer os questionadores.

(…)

A Igreja Católica teme apenas uma coisa: a ignorância. Ela acolhe toda luz que pode ser lançada sobre ela, mas deve ser uma luz branca. Muitas vezes, ela é vista sob a luz colorida do fanatismo e, sob esse disfarce, pode afastar ao invés de atrair. Mas em si mesma ela é tão bela, seus ensinamentos são tão sublimes e lógicos, que as maiores mentes de todas as épocas foram cativadas por ela. Certamente, quando vemos um gigante intelectual como John Henry Newman se curvar submisso a ela, podemos saber que ela não se intimida diante da mais rígida investigação. E quando, contemplamos uma mente-mestra como Chesterton reconhecer seu caráter divino, não precisamos temer que os ataques de mentes inferiores a pertubem. Não é por ela que tememos, pois ela tem a garantia do próprio Deus; mas é por nós mesmos, para que não fracassemos naquilo que devemos a ela.

Hoje, pessoas de fora da Igreja estão famintas das coisas do Espírito. Suas próprias igrejas lhes dão pedra ao invés de pão. Elas anseiam por algo a mais do que as coisas insatisfatórias da terra. Elas acham a vida vazia. O fim de um dia não lhes traz nada que valha a pena. Elas aceitariam a nossa abençoada religião se soubessem disso, pelo que ela é. A maioria delas virou materialista ou indiferentista e está desanimada. Como sabemos, a Igreja Católica responde a todos os gritos da alma. Ela satisfaz as aspirações mais elevadas da mente humana. Ela só precisa ser conhecida para ser amada. Nós podemos ajudar a torná-la conhecida. Nossas vidas são os melhores retratos dela, se formos fiéis a ela. Depois das nossas vidas, as nossas conversas, as nossas informações transmitidas com tato e corretamente, farão mais para levá-la ao afeto daqueles que agora estão dela afastados.

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Dificilmente passa um dia sem que alguns de nós recebamos perguntas sobre a nossa Fé. No escritório, na rua, nas lojas, assuntos religiosos não costumam ocupar o lugar principal da conversa. É espantoso observar a atenção extasiada que se obtém quando, em tais ocasiões, se pode dizer algo que vai direto ao ponto. O fato é que no fundo do coração de todo homem há um desejo de conhecimento sobre a alma, Deus e o futuro.

A religião católica tem informações definidas sobre todos esses assuntos. Além disso, um católico bem informado também tem a resposta para os problemas desconcertantes da vida cotidiana. A Igreja é simplesmente a continuação da missão de Cristo para a humanidade. Ele nos ensinou a maneira de viver para a nossa paz aqui e o nosso bem-estar eterno no futuro. Ele deu a resposta, pelo menos em princípio, a todas as questões da vida. Sua Igreja é a Sua porta-voz. Se queremos saber o que Deus pensa do matrimônio ou de qualquer outra questão da vida, podemos procurá-la para obter informações. Afinal, é o julgamento de Deus sobre esses assuntos que [realmente] vale. Às vezes, um doente se recusa a consultar um médico por medo de vir a saber a verdade. Mas é melhor saber a verdade, ainda que indesejável, do que andar nas trevas e cair num abismo.

As verdades da religião não são para o nosso prazer passageiro, mas para a nossa paz definitiva. Cristo veio à Terra não para nos dar as alegrias temporárias, mas a eterna alegria da vida com Ele. Ele não veio dar nada que o homem, com seu próprio poder, pudesse obter, mas o que estava acima do poder do homem em alcançar. Ele veio para nos dar uma participação na Vida Divina. Todo o Seu ensinamento foi para nos ajudar a sermos participantes da natureza divina. Este é o fim da religião: nos tornar filhos de Deus, membros da família divina. Sua Igreja foi estabelecida não para nos tornar ricos, nem para nos honrar, nem para nos tornar longevos, mas para nos tornar filhos de Deus. Um católico bem informado tem o verdadeiro conhecimento da vida.

Ao considerar o ensino da Igreja, devemos sempre ter em mente que ela tem em vista não apenas o bem-estar desta breve vida, mas [em especial] a vida que não tem fim. Um pai costuma ditar regras para uma criança que, enxergando apenas os seus interesses atuais, as considera como restrições desnecessárias. Mas o pai enxerga o futuro e sabe que, mais tarde, o filho o abençoará por essas salutares restrições. Nosso Pai Celeste é solícito principalmente por nosso bem-estar eterno. Seus Mandamentos são para a nossa bem-aventurança duradoura. E todo homem, em sua natureza mais íntima, sente que é assim. É por isso que a Fé católica, quando corretamente explicada, satisfaz o questionador mais exigente.

Deus é o autor da Fé católica e também o autor da natureza humana. É apenas a natureza humana distorcida que pode encontrar a verdade católica, justamente explicada, em desconformidade com as aspirações humanas.

(…)

Um católico devidamente informado é um trunfo para a Igreja e para o Estado!

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