Espaço do Leitor Respostas a Leitores (por Carlos Martins Nabeto)

Leitor pergunta: qual a melhor tradução da Bíblia?

Em minha paróquia, ouvi de meu padre a instrução de que a tradução da Ave Maria é a menos indicada para estudo e oração. Qual é a melhor tradução católica para uso de um cristão que busca a Deus? Que Deus os abençoem copiosamente. Grato. (Glauber)

Prezado Glauber,

Pax Domini!

Primeiramente, gostaria de desejar-lhe um Santo e Feliz Natal e agradecer-lhe por confiar em nosso Apostolado. Que Deus o proteja sempre!

No tocante à sua questão, penso que ela deveria ser dividida em duas partes:

1) Qual a melhor Bíblia para estudo?

2) Qual a melhor Bíblia para oração?

Seu questionamento é importante, vez que o mercado editorial brasileiro oferece diversas traduções do Texto Sagrado… algumas boas, outras satisfatórias, outras lamentáveis…

Pois bem. Para o estudo da Bíblia, interessa um texto mais próximo à literalidade dos originais nas línguas hebraica, aramaica e grega, sem se sacrificar, obviamente, o sentido das frases. Por exemplo: é importante saber o nome oficial das moedas e medidas empregadas, conhecer certas expressões idiomáticas típicas (“cingir os rins”, “em verdade em verdade”, “irmãos” etc…) e certos detalhes que ajudam a identificar os exatos contextos e circunstâncias. Logo, o texto resultante fica bem mais árido, mais literal, mais científico…

Para a oração, por outro lado, o texto traduzido pode ser mais livre, mais solto, embora não possa perder sua fidelidade às línguas originais. Assim, não é importante saber se a moeda empregada em certo lugar se chamava “dracma” ou se certa medida era dada em “covâdos”; pode-se, inclusive, fazer conversões (ex: de côvados para metros) para tornar o texto mais compreensível ao leitor, ou embelezar estilisticamente o texto com o emprego de palavras sinônimas ou análogas, mantendo-se assim o sentido da idéia do escritor sagrado na língua do leitor moderno. O texto, portanto, soa mais belo ao ouvido, mais próximo à nossa língua e cultura…

Considerando tudo isto, abordemos agora as traduções que melhor atendem essas duas áreas.

Para o estudo bíblico, não obstante o surgimento da chamada “Tradução Ecumênica da Bíblia” (ed. Loyola), fruto dos trabalhos de uma comissão composta por católicos, protestantes e ortodoxos e com ótimas notas de rodapé, a denominada “Bíblia de Jerusalém” (ed. Paulus) continua mantendo, mundialmente, a preferência entre peritos, teólogos e estudantes de Teologia.

No Brasil, encontra-se em nova edição, “revista e ampliada” com informações das mais recentes descobertas bíblicas e arqueológicas. O biblista pe. Nei Brasil salientou, contudo, que é necessário que a editora Paulus proceda a várias correções no texto que traduziu, vez que neste há muitas imprecisões e omissões em relação à obra original em francês. Mas, ainda assim, ele dá preferência à tradução da Bíblia de Jerusalém sobre qualquer outra, como se vê abaixo:

“Antes de tudo, os parabéns sinceros à Paulus pelo serviço inestimável de oferecer ao Brasil o tesouro da Bíblia de Jerusalém (BJ), agora em ‘nova edição, revista e ampliada’ , correspondendo ao original da BJ francesa de 1998. (…) Por outro lado, substancialmente é a mesma BJ, cuja qualidade insubstituível todos reconhecemos e que, mesmo ao lado da TEB, a ‘Tradução Ecumênica da Bíblia’, da Loyola e, agora, ao lado também da ‘Bíblia do Peregrino’, da mesma Paulus, continua a gozar da preferência dos nossos teólogos e estudantes de Teologia. (…) Falando de modo geral, penso que é urgente uma séria revisão do texto publicado. Li com vagar todas as Introduções e ainda, especialmente, o texto dos cinco livros dos quais eu era responsável [pela tradução nas edições de 1981 e 1985]; é impossível confeccionar a lista das correções a ser feitas, tal a quantidade das que pude anotar. (…) Apesar de todas estas observações, no entanto, quero terminar como comecei, expressando meus sinceros parabéns à Paulus pelo serviço inestimável à Igreja do Brasil que é esta nova edição, atualizada, da Bíblia de Jerusalém. Mesmo discordando da afirmação – legítima em marketing! – de que estamos diante de uma nova edição da Bíblia ‘inteiramente nova’, concordo com a frase final da propaganda: ‘Com razão se poderá dizer’ – especialmente após uma boa revisão – ‘que, hoje, esta edição da Bíblia de Jerusalém representa a mais nova e atual leitura do texto da Bíblia no Brasil’ ” (grifos meus).

Para ler o artigo completo do pe. Nei Brasil, acesse este nosso subsite (PR Online): https://www.veritatis.com.br/pr/2003/pr49138.htm

Agora, para favorecer a oração, creio que existem pelo menos 4 boas opções, nesta exata ordem:

1º) A Vulgata de São Jerônimo traduzida pelo pe. Matos Soares (ed. Paulus). A Vulgata de São Jerônimo, como você deve saber, foi o texto oficial da Igreja latina até o surgimento recente da Neovulgata, ainda não traduzida para o português. Pelo que eu saiba, infelizmente esta tradução encontra-se esgotada na editora e só pode ser encontrada em sebos. As edições anteriores a 1960 possuem excelentes e interessantes notas de rodapé!!! Por isso, vale a pena procurá-la…

2º) A Bíblia do Peregrino (ed. Paulus), cuja tradução não se guia por equivalências literais diretas, mas sim por equivalências dinâmicas proporcionais (que reproduzem o gênio das línguas antigas na língua portuguesa moderna, ampliando a beleza literária). Possui longas notas de rodapé, de cunho pastoral.

3º) A Bíblia Sagrada Vozes (ed. Vozes), possui um texto muito bem cuidado, clássico, e boas notas de rodapé.

4º) Por fim, a Bíblia Sagrada Ave-Maria (ed. Ave-Maria), que você possui e conhece (desta forma, concordo com o seu pároco, que ela não se destina ao estudo, mas discordo dele quando afirma que não favorece a oração).

Para que você possa ter uma idéia melhor de todo o exposto, apresento abaixo uma simples comparação de textos, baseada em Mateus 6,22-23:

– Bíblia de Jerusalém (BJ): “A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se o teu olho estiver são, todo o teu corpo ficará iluminado; mas se o teu olho estiver doente, todo o teu corpo ficará escuro. Pois se a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão as trevas”

– Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB): “A lâmpada do corpo é o olho. Se pois o teu olho está são, teu corpo inteiro estará na luz. Mas se o teu olho está doente, teu corpo inteiro estará nas trevas. Se pois a luz que há em ti são trevas, que trevas!”

– Bíblia do Peregrino (BP): “O olho fornece luz a todo o corpo: portanto, se teu olhar é generoso, todo o teu corpo será luminoso; porém, se teu olhar é mesquinho, todo teu corpo será tenebroso. E se tua fonte de luz está às escuras, que terrivel escuridão!”

– Vulgata de Matos Soares (VMS): “O olho é a lâmpada do corpo. Se o teu olho for são, todo o teu corpo terá luz. Mas, se teu olho for defeituoso, todo o teu corpo estará em trevas. Se pois a luz, que há em ti, é trevas, quão espessas serão as próprias trevas!”

– Bíblia Sagrada Vozes (BSV): “O olho é a lâmpada do corpo. Se o olho for são, todo o corpo será luminoso. Mas se o olho estiver doente, todo o corpo estará na escuridão. Pois, se a luz que está em ti for escuridão, como não será a escuridão?”

– Bíblia Sagrada Ave-Maria (BAM): “O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado. Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas. Se a luz que está em ti são trevas, quão espessas deverão ser as trevas!”

Repare como os dois primeiros textos (BJ e TEB) são praticamente idênticos, com uma linguagem mais árida e científica que os outros quatro (VMS, BP, BSV e BAM). Essa é a principal característica das Bíblias de Estudo…

Agora compare atentamente entre si os outros 4 textos: os dois versículos, embora tratem do mesmíssimo assunto, são traduzidos de forma mais livre para acomodá-los à nossa linguagem: a BSV coloca um ponto de interrogação no final do versículo onde todos os outros apontam uma exclamação (embora saibamos que o original grego apresenta um texto corrido sem pontuações); a BP fala de olho “generoso” ou “mesquinho”, em “fonte de luz”…; a VMS fala de olho “defeituoso” enquanto que a BAM fala de olho “em mau estado”. Sem dúvida alguma, as 4 traduções são válidas e não destorcem o original, propiciando, com sua linguagem simples, uma inspiração mais favorável à oração.

Espero tê-lo ajudado.

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