Espaço do Leitor

Leitor presbiteriano questiona a exegese católica

Prezado,
Não vos escrevo a ponto de querer persuadi-lo nem tão pouco de mudar a vossa fé, mas a despeito do tema “ALGUMAS AFIRMAÇÕES DOS EVANGÉLICOS REFUTADAS NOS EVANGELHOS” tenho muitas discordancias, não só ao tema mas sim as defesas usadas, desde de garoto tem ouvido e aprendido que “texto sem contexto é pretexto!” varios trechos de passagens biblicas foram usados para alicerçar sua defesa mas devo discordar de todos, pois quando se colocam em seus devidos contextos essas passagens não falam sobre as perguntas abordadas. Mas para não me alongar vou me deter à apenas algumas questões
1. Os textos usados para a defesa de que as obras também contam para a salvação, são totalmente fora de contexto pois em momento nenhum fala que a salvação lhes foi dada por estes motivos, mas estais certos ao falar das obras, pois o evangelho de Jesus é sobre o amor e como Paulo escreve dizendo em aos Filipenses 2, 4. Não devemos ter o que é apenas nosso mas nos preocuparmos com os outros o próprio Paulo também escrevendo aos gálatas nos exorta sempre fazermos o bem. Mas errais ao achar que por meio das obras há salvação e sim pela fé como vemos em claramente na carta aos Efésios 1, 8 e 9 que diz “pois pela graça sois salvos, mediante a fé; e isso não vêm de vós; é dom de Deus; não de OBRAS, para que ninguem se glorie”. Outra passagem que mostra a justificação pela fé está em gálatas 2 inteiro e Paulo mostra explicitamente justificação pela fé no verso 16.
2. Quanto as questões 8,9,10 mostras desconhecimentos para os protestantes, maria é uma mulher santa, separada, escolhida por Deus como muitos são, que foi muito agraciada, ela foi escolhida por ser da ninhagem de davi e para que se cumprisse a profecia que dizia que da casa de Davi nasceria o messias. Quanto a questão a sua devoção, para os protestantes ninguém deve ser venerado ou adorado se não proprio Cristo, no evangelho de Lucas no cap 11, versos 27 e 28 mostram uma mulher que bem aventura maria e Jesus diz que muito mais bem aventurado são os ouvem as palavras de Deus e as guardam. Quando se fala que ela não pode fazer nada se fala, quanto a questões de milagres e que ela não pode interceder por ninguem, pois só o proprio Cristo pode fazer tal coisa, pois a biblia diz que Jesus é nosso advogado e que intercederá por nós. O que se fala sobre as repetições nas orações é um próprio mandamento de Cristo pois o mesmo diz em mateus 6: 7 e 8 para não usarmos de vãs repetições, e quanto ao texto usado como base deve ser usado a exergese do texto e analisar o seu contexto o momento em que foi escrito, um momento de intensa angústias, pois quando estamos orando sobre fortes angústias acabamos nos repetindo. Na questão 11 o que os protestantes não creem é na sucessão apostolica que dá autoridade ao papa e sim creem que a autoridade da igreja vem da palavra de Deus e não da sucessão apostolica. Outra coisa é quando se fala da igreja, o que os protestantes afirmam é que a igreja como instituição não salva e sim Cristo salva, pois o proprio Cristo diz, ninguém vem ao pai senão por mim, a Igreja de Cristo citada na biblia é o seu povo, a Igreja biblica, são a pessoas que comungam dá mesma fé, a fé cristã, e não a igreja instituição, seja ela de qualquer denominação.
3. Quanto a outras questões como a da predestinação na qual diz que uma vez salvo, salvo para sempre, isso é algo das igrejas calvinistas , como nós presbiterianos e não de todos os protestantes, de igual modo o batismo infantil, para os calvinistas o batismo pode ser feito nas crianças e ele é feito por asperção, mas aceitamos também o batismo por imersão.
Mas uma vez repito, não quero persuadi-lo a nada, mas exorto paute sempre as defesas de sua crença na biblia pois ela é a palavra de Deus, não tire o texto do seu contexto, e nunca deixe de fazer a exergese do texto, observando tudo. No mais rogo a Deus que essas palavras cheguem a ti em espirito de mansidão tal como uma exortação em amor.
Cordialmente (Hilan)

Prezado Hilan,

A paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Agradecemos pelo contato.

Vamos às suas dúvidas:

1) A máxima “texto sem contexto é pretexto” aplica-se perfeitamente à exegese protestante. Afinal, é próprio do protestantismo abstrair o texto bíblico (não só passagens específicas, mas todo o conteúdo da Escritura Sagrada) da Tradição em cujo seio a Bíblia foi engendrada e à luz da qual foi interpretada ao longo de séculos (até a eclosão da chamada Reforma Protestante). Não satisfeitos, os exegetas protestantes também têm por norma interpretar a Bíblia ignorando o ensino da Igreja (isto é, da Igreja Católica), a quem o próprio Cristo confiou a autoridade para guiar o Seu rebanho (cf. João 21, 15-17). O que disseram os Pais e Doutores da Igreja, além do ensino oficial (ex cathedra) dos Papas, pouco ou nada importa para os protestantes. Além disso, o protestantismo também tem por costume ignorar o contexto histórico e cultural no qual o texto bíblico foi escrito, preferindo interpretar a Bíblia de forma absolutamente literal, como se a Escritura Sagrada, em vez do resultado de um processo, tivesse surgido pronta, como que caída do céu.

2) A Igreja Católica, em momento algum, ensina que a salvação se dá exclusivamente pelas obras, isto é, não ensina que é pelas obras que somos salvos, mas sim pela fé E pelas obras. A esse respeito a epístola de S. Tiago é claríssima (grifos meus):

“14. De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso esta fé poderá salvá-lo? 15. Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano, 16. e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? 17. Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma. 18. Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras. Mostra-me a tua fé sem obras e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. 19. Crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios crêem e tremem. 20. Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é estéril? 21. Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? 22. Vês como a fé cooperava com as suas obras e era completada por elas. 23. Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus (Gn 15,6). 24. Vedes como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé?” (Tiago 2, 14-24)

Não foi à toa que Lutero cogitou excluir essa epístola do cânon da Bíblia…

Ainda sobre esse assunto, recomendo a leitura dos artigos abaixo, todos publicados no site [do Apostolado Veritatis Splendor]:

· A fé responsável
· As diferenças entre as boas obras e as obras da lei
· Fé e obras
· Ignorância religiosa
· Leitor contesta artigo que fala da fé e obras
· Leitor questiona artigo sobre fé e obras
· Uma das mais insidiosas heresias hodiernas
· Reflexões sobre a fé como ato do intelecto
· Respostas aos protestantes sobre a fé e as obras
· A graça, a fé, as obras e a salvação
· A graça e a justificação
· Fé, obras e certeza da salvação

3) A Igreja Católica, em momento algum, ensina que a Virgem Maria deve ser “adorada”. Venerada, sim, no sentido de homenagear, prestar honra, amar etc. Também não é a Virgem Maria quem opera os milagres, mas sempre Deus, por intercessão da Virgem Maria (e dos santos). Com relação à intercessão e à veneração da Virgem Maria e dos santos, recomendo uma consulta ao nosso Índice Temático, onde você encontrará uma grande quantidade de textos que poderão esclarecer todas as suas dúvidas sobre esse assunto. Caso reste alguma questão em aberto, fique à vontade para nos escrever.

4) Sobre as “vãs repetições”, eu lhe pergunto: se você disser, para o seu pai ou para sua mãe, a frase “eu te amo”, isso todos os dias, todas as horas ou mesmo todos os minutos da sua vida, estará usando de “vãs repetições”? Serão palavras ou repetições “vãs” (ou seja, sem valor, insignificantes) as frases que dizemos às pessoas que amamos e que são realmente dignas do nosso mais profundo amor (como o são Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua Mãe, a Virgem Maria)? E veja essa passagem do livro do Apocalipse (cap. 4, vers. 8): “Estes Animais tinham cada um seis asas cobertas de olhos por dentro e por fora. Não cessavam de clamar dia e noite: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Dominador, o que é, o que era e o que deve voltar”. Seriam “repetições vãs”? Aliás, o que faremos no céu senão louvar continuamente (ou repetidamente) ao Senhor Nosso Deus? Está claro que a advertência de Nosso Senhor Jesus Cristo refere-se à mera repetição de palavras e frases vazias, isto é, desprovidas de um sentido verdadeiramente sagrado, e proferidas apenas da boca para fora, de forma irrefletida e sem que a pessoa que ora esteja com a reta intenção de se conectar espiritualmente com Deus.

Ademais, em diversos salmos encontramos frases repetidas, o que você mesmo pode conferir em sua Bíblia (por exemplo, salmos 46, 80, 107, 136 e outros)

A esse respeito recomendo ainda a leitura do artigo “Mateus 6,7-8 e as “vãs repetições””

5) A sucessão apostólica, além de ser inferida da Bíblia e da história, é uma questão de lógica. Se Cristo quisesse que cada fiel interpretasse a Sua doutrina individualmente, da forma que melhor lhe aprouvesse, Ele não teria escolhido doze Apóstolos nem lhes incumbido a tarefa de gerir a Igreja. Se Cristo, dentre a multidão dos Seus seguidores, escolheu doze para um múnus específico, foi porque Nosso Senhor quis constituir um corpo de pessoas autorizadas a ensinar retamente a Sua doutrina. E como esses doze apóstolos não poderiam estar eternamente vivos entre nós, fez-se necessário que tais homens fossem sucedidos, e que tal sucessão se desse de forma legítima, a fim de que a Igreja não ficasse acéfala e que a decisão de Cristo de eleger homens para guiar o rebanho não fosse inútil. Esse é o cerne do princípio da sucessão apostólica. Sobre esse assunto, recomendo a leitura dos artigos abaixo [naquele mesmo site]:

· O magistério da Igreja Católica [1] [2]
· Tradição, magistério e sucessão apostólica
· Estudando a sucessão apostólica
· Leitor diz que se pode duvidar da sucessão apostólica na Igreja Católica
· Sobre a existência da sucessão apostólica
· Testemunhos patrísticos sobre a sucessão apostólica

6) A respeito da eclesiologia católica, recomendo a leitura dos artigos abaixo [no mesmíssimo site]:

· A eclesiologia protestante
· A natureza da Igreja
· Creio na Santa Igreja…
· Eclesiologia
· Fora da Igreja não há salvação?
· Igreja, minha Mãe
· Número de adeptos das religiões
· O Concílio Ecumênico do Vaticano II
· O que foi o Concílio Ecumênico de Trento?
· Os legados do Romano Pontífice
· Qual a diferença entre a Igreja Militante e a Igreja Triunfante?

7) O penúltimo parágrafo da sua missiva é uma demonstração cabal do quanto a exegese protestante é precária, é falha:

“Quanto a outras questões como a da predestinação na qual diz que uma vez salvo, salvo para sempre, isso é algo das igrejas calvinistas, como nós presbiterianos e não de todos os protestantes, de igual modo o batismo infantil, para os calvinistas o batismo pode ser feito nas crianças e ele é feito por aspersão, mas aceitamos também o batismo por imersão.”

Veja como a exegese protestante fatalmente leva ao subjetivismo e ao relativismo! A predestinação é entendida por uns grupos protestantes de uma forma e, por outros grupos, de outra forma! O mesmo se dá com relação à questão do batismo (presbiterianos e luteranos, por exemplo, aceitam o batismo infantil, ao passo que batistas e outros grupos protestantes só ministram o batismo após uma certa idade; algumas denominações batizam por aspersão, enquanto outras afirmam que só é válido o batismo por imersão!).

A exegese católica é a ÚNICA verdadeiramente objetiva (e é claro que aqui devem ser excluídas as hermenêuticas progressistas, assim como as ultratradicionalistas, pois são feitas à revelia do ensino oficial do Magistério da Igreja, isto é, são feitas ao modo protestante). Todas as demais exegeses variam ao sabor das interpretações, preferências e gostos pessoais.

Termino essa resposta orando a Deus, pedindo a Ele que lhe conceda a oportunidade de compreender que a sã doutrina cristã não está e jamais estará sujeita à interpretação deste ou daquele indivíduo (seja ele Lutero, Calvino ou Edir Macedo), nem desta ou daquela denominação (seja a luterana, a calvinista ou alguma neopentecostal). A sã doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo só pode ser encontrada, incólume, na única Igreja que Ele fundou, a saber, a Igreja Católica Apostólica Romana, que recebeu de Seu Fundador a incumbência de preservar e ensinar a doutrina até o fim dos tempos. E “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18b).

Em Cristo,
Marcos M. Grillo





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