P: Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que você era diferente?
R: Isso não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primeiro dia de trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um gari. Fui tratado de uma forma completamente diferente. Os garis são carregados na caçamba da caminhonete junto com as ferramentas. É como se eles fossem ferramentas também. Eles não deixaram eu viajar na caçamba, quiseram que eu fosse na cabine. Tive de insistir muito para poder viajar com eles na caçamba. Chegando no lugar de trabalho, continuaram me tratando diferente. As vassouras eram todas muito velhas. A única vassoura nova já estava reservada para mim. Não me deixaram usar a pá e a enxada, porque era um serviço mais pesado. Eles fizeram questão de que eu trabalhasse só com a vassoura e, mesmo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a dimensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem socioeconômica deles.

P: Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença?
R: Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger.


Vejam, só: é isso que me faz achar que o Brasil é um país, talvez o único país, que “tem jeito”: “Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger.” As classes mais baixas reconhecem a elite, e reconhecem a realidade, recusando-se a aceitar a bobageira marxista de que a existência de uma elite significa desprezo ou diminuição da massa. Eles não se sentiram diminuídos, mas honrados com a presença entre eles de um membro da leite, a quem fizeram questão de proteger. Isso é lindo!

Ao mesmo tempo, os idiotas moderninhos, com suas categorias e seus protestos quanto à “condição operária” ou o que quer que seja a moda agora, passam pelos garis como se eles fossem peças do mobiliário, não gente. Para os modernos, para a “inteliguêntsia”, eles não são gente; não são pessoas, com individualidade: são “proletários explorados”, ou qualquer outra besteira do gênero. São exemplos de uma categoria, não pessoas vivas e com sentimentos. O trabalho que elas fazem é considerado sórdido, e é “de bom tom” não comentar a respeito; não há sequer o respeito pelo trabalho dos garis que levaria a comentar, ao passar e ver o montão de lixo, “como tem gente porca aqui, não é?”… Um comentário como esse é um simples reconhecimento não apenas da existência da pessoa que está lá a varrer, como da dignidade real de seu serviço. Não se trata da “dignidade” teórica marxista, que faz com que professores universitários tenham que ir cortar cana uma vez ao ano “para deixarem de ser elite”: isso é burrice. Professores universitários são péssimos cortadores de cana, como certamente este foi um péssimo gari. Cada qual tem a sua posição no mundo, cada qual é chamado a algo, mas cada posição, cada profissão, cada situação tem uma dignidade que lhe é própria e deve ser apropriada à pessoa que a desempenha… e respeitada pelos outros.

Não se trata de dar “bom-dia” como quem dá uma esmola, sim de perceber no gari (ou no porteiro, etc., etc., etc.) um ser humano que está desempenhando uma função e merece o respeito que é devido a um ser humano. Isso inclui – quando se é do tipo que “puxa papo”, puxar papo; isso inclui, sim, saudar, mas não saudar como esmola: saudar como quem saúda qualquer outra pessoa; isso inclui respeitar o trabalho do sujeito, e por aí vai.

As elites brasileiras, tomadas pelas horrendas idéias igualitaristas, ficam dilaceradas entre o nojo visceral que sentem das classes mais baixas (identificando o gari com o lixo, ou vendo na condição de gari a totalidade da pessoa, desumanizando-a e transformando-a em um “explorado”) e o suposto “amorrrrr” pelos “proletários oprimidos”, que faz com que se sintam no dever de dar abraços que não querem dar e distribuir “bom-dia” e “boa-tarde” como quem dá esmolas, fazendo uma força tremenda para se convencer que aquele “lixo sub-humano” é um “proletário oprimido” que se deve “amarrrrr”. O Júlio Lemos escreveu algo sobre isso há um tempo atrás, que eu mandei para a lista, lembram?

Está aí, porém, um excelente exemplo de que o povão não caiu nesta esparrela. Repito a citação: “Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger.”

É coisa de pendurar na parede e dar graças a Deus por ser brasileiro.

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