Continuando a reflexão sobre a relação entre filosofia e teologia, importa recordar que o Magistério não se furta do dever de indicar aos seus fiéis e àqueles de boa vontade a integralidade da natureza humana. Isto é, a Igreja Católica não se cansa de chamar a atenção de todos os homens sobre o idêntico valor da fé e da razão e, portanto, da complementaridade da reflexão filosófica e teológica. E os motivos são bastante claros. Vejamos:

2. Contra a crescente postura de rejeição à filosofia (refletida anteriormente aqui), infelizmente ainda muito encontrada entre alguns teólogos – e entre um grupo não desprezível de fiéis –, vimos que o Magistério da Igreja de tempos em tempos lança algum documento afirmando e reafirmando o valor positivo da racionalidade e a unidade intrínseca entre fé e razão. O último documento que retomou este tema foi a Carta Apostólica lançada em 1998 pelo Papa João Paulo II, intitulada Fides et Ratio[1]. Neste documento a Igreja, pela voz do Sucessor de Pedro, declara o valor inestimável da filosofia nas pesquisas teológicas e convoca todos os teólogos – igualmente todos os cristãos – a que “prestem atenção às implicações filosóficas da Palavra de Deus”[2]. Além da importância na reflexão teológica e dos seus corolários, a filosofia é muitas vezes o “único terreno comum de entendimento e diálogo com quem não partilha a nossa fé”[3]. Neste sentido, o discurso filosófico, quando bem realizado, pode apresentar a seus contemporâneos um modo de acesso ao Criador que prescinde da abordagem da fé, tendo, portanto, um aspecto, dir-se-ia, evangelizador. Quem sabe, até kerigmático.

Apesar da frequente resistência diante das reflexões filosóficas por parte de alguns fiéis, o Magistério Eclesial continua reiterando a necessidade de investir na preparação filosófica e na formação integral de seus membros. O documento Fides et Ratio é um exemplo do zelo com que a Igreja Católica trata o assunto. A despeito do crescimento dos cristãos protestantes, que tradicionalmente reagem a qualquer postura que empreste alguma racionalidade às Sagradas Escrituras ou à compreensão, mesmo que parcial da Revelação, os cristãos católicos não abrem mão do valor positivo da racionalidade. Afinal, o mesmo Criador que deu a fé aos homens, também presenteou a humanidade com potências intelectivas. Ora, se Deus criou a razão é para que o homem a use, segundo os preceitos do próprio Deus. Afinal, é a própria Sagrada Escritura quem afirma que, depois de contemplar toda a criação de suas mãos, o Criador afirma que “tudo era muito bom” (Gn 1,31). A inteligência é, portanto, naturalmente boa e não uma inimiga da fé.

Não se pode, portanto, abdicar da razão na reflexão teológica, à guisa de tornar a abordagem mais condizente com os dados da fé. Pelo contrário, importa cuidar de averiguar tanto os pressupostos filosóficos da Sagrada Escritura como suas consequências mais importantes. Como ensina o episódio do Jovem Rico (Mt 19, 16ss), a natureza permanece sendo o critério da primeira conversão; após a qual, segue-se a conversão à Graça. Este dado da Bíblia talvez ensine que, na Pedagogia Divina, o plano natural não é contrário ao espiritual, mas um propedêutico, um momento preparatório. A reflexão filosófica não raro é o adubo de onde pode brotar uma reflexão teológica mais madura e menos supersticiosa. Apesar de seu próprio valor, a filosofia (e especialmente a metafísica) tem a função inestimável de aproximar os temas teológicos da mais pura reflexão humana sobre os entes.

E é neste sentido que a metafísica é, muitas vezes, o ponto de interseção entre pessoas que não concordam sobre temas de fé. Afinal, a natureza ainda é um ponto comum entre todos os homens. Por isso, entre fiéis e não fiéis, entre cristãos e ateus, entre os que acreditam e os que não acreditam, a filosofia continua sendo o instrumento ordinário de diálogo, servindo muitas vezes de degrau para o dado da fé. Há, de fato, um modo de apresentação da revelação teológica que não chega a ser propriamente cristã. Realmente, não se pode substituir o Evangelho por Aristóteles. Contudo, não se pode negar o valor propriamente propedêutico deste tipo de abordagem, que já deu à História da Igreja flores e frutos sem par. De fato, a rejeição da reflexão filosófica como instrumento e apoio da teologia induz a um erro antropológico: a dicotomia entre fé e razão. Pelo contrário, o senso comum e a experiência cotidiana demonstram que esta cisão, quando há, é eventual. Ordinariamente o homem segue sendo um que ama e que acredita; um mesmo que reflete e que espera; um mesmo que entende e que crê. Fé e razão são como duas asas, que levam o homem mais alto. Sem uma delas, ou com a supervalorização de uma sobre a outra, o resultado é um rodar em círculos sem fim.

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NOTAS: [1] JOÃO PAULO II. Fé e Razão. São Paulo: Loyola, 1998. * [2] Fides et Ratio, 105. Grifo nosso. * [3] Idem, 104.

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