Aqui está um mito antibíblico ao qual muitos protestantes se apegam, sem sabê-lo: uma crença no chamado “período intertestamentário” ou “os 400 anos de silêncio”, no qual Deus supostamente (e inexplicavelmente) parou de se comunicar com o seu povo entre aproximadamente 400-450 a.C. e a Encarnação de Cristo. O site [protestante] “GotQuestions?” descreve a visão dominante no protestantismo:

  • “O tempo entre os últimos escritos do Antigo Testamento e o aparecimento de Cristo é conhecido como ‘período intertestamentário’ (ou ‘entre os Testamentos’). Como não houve palavra profética de Deus durante esse período, alguns se referem a ela como ‘os 400 anos de silêncio'”.[*]

Há várias coisas erradas com essa crença:

Primeiro: essa crença num “período intertestamentário” ou de “400 anos de silêncio” não tem absolutamente qualquer suporte bíblico. Você não encontrará nenhuma referência bíblica apoiando isso porque elas simplesmente não existem. As fontes protestantes que encontrei explicando tal doutrina não se preocupam em defendê-la com as Escrituras; ao contrário, elas apenas assumem tal coisa.

Isso se dá porque a doutrina do silêncio intertestamentário não tem origem nas Escrituras. Pelo contrário, é uma distorção de um ensinamento judaico (pós-cristão) de que Deus cessou permanentemente a revelação profética por volta do ano 450 a.C. O Talmud Babilônico ensina que “quando Ageu, Zacarias e Malaquias morreram, o Espírito Santo deixou Israel”. Porém, esse é um argumento contrário ao Cristianismo e não só contra os livros deuterocanônicos. De qualquer forma, tal afirmação é contraditada por outras partes do mesmo Talmud, já que este aponta o livro do Eclesiástico como Escritura. (…) Desnecessário dizer que o ensino talmúdico serve como fundamento extremamente fraco, particularmente para os cristãos.

Segundo: ainda como suposição, o “período intertestamentário” é totalmente contrário à lógica das Escrituras. A crença nos “400 anos de silêncio” é uma posição peculiar cômoda a ser assumida: tanto católicos quanto protestantes tendem a concordar que o Antigo Testamento existe por causa de Cristo (veja-se, p.ex., Hebreus 1,1-2; Lucas 24,27; Mateus 5,17). Como disse Erich Sauer,

  • “O Antigo Testamento existe para o Novo Testamento. O próprio Cristo é o objetivo e a alma da revelação histórica pré-cristã. Ele é o objetivo da história do Antigo Testamento, o significado da adoração do Antigo Testamento a Deus, o cumprimento da profecia messiânica do Antigo Testamento”.

Todo o Antigo Testamento se desenvolve lentamente com profecias cada vez mais claras sobre Jesus Cristo. Mas se esse é o caso, se o Antigo Testamento existe principalmente para preparar o mundo para Cristo, é extremamente estranho supor que nos cerca de 450 anos anteriores à Encarnação, Deus simplesmente parou de prepará-los. Se Sauer e os inumeráveis ​​católicos e protestantes que concordam com ele nesse ponto estão corretos, é precisamente aí que deveríamos esperar que houvessem Escrituras Cristológicas.

Terceiro: o próprio Jesus refuta essa teoria de “400 anos de silêncio”. Como mencionei anteriormente, essa noção de um “período intertestamentário” está em desacordo com o relato de Jesus da história da salvação, de que “todos os Profetas e a Lei profetizaram até João” (Mateus 11,23). E, sem dúvida, este é o ponto mais importante.

Onde os protestantes postulam um desenrolar gradual ao longo dos séculos, que cessa abruptamente e inexplicavelmente por quase meio milênio, Cristo sugere justamente o inverso: que esse desenrolar gradual continuou até João Batista, que é a testemunha mais clara e direta de Jesus.

Quarto: outros lugares no Novo Testamento também dissipam o mito do silêncio intertestamentário. P.ex., Lucas 2 menciona o idoso profeta Simeão e a profetisa Ana no templo, mostrando que os profetas (e profetisas) continuavam ativos no Judaísmo antes do nascimento de Cristo. Simeão recebeu uma profecia do nascimento imanente de Cristo (cf. Lucas 2,26). Além disso, Zacarias [pai de João Batista] recebe uma revelação pré-cristã ligada a Jesus, quanto ao nascimento de [seu filho] João Batista (cf. Lucas 1,13-17).

UMA ALTERNATIVA BÍBLICA

Como devemos então entender a relação entre a Antiga e a Nova Aliança? Como uma continuidade e realização. É significativo que, em Lucas 1-2, Zacarias, Simeão e Ana sejam todos idosos: Zacarias é descrito como idoso em Lucas 1,18; Simeão só aguarda a morte (cf. Lucas 2,26.​​29); e Ana tem “idade avançada”, “quase 84 anos” (cf. Lucas 2,36-37). Cristo, ao contrário, é uma criança de apenas 40 dias (cf. Lucas 2,22). Portanto, a Antiga e a Nova Aliança se refletem nas idades dos presentes.

Como explicou São Beda, o Venerável (673-735), isso significava a longa espera de Israel por um Messias e seu cumprimento em Cristo:

  • “Simeão e Ana, homem e mulher em idades avançadas, cumprimentaram o Senhor com os devotados serviços de suas profissões de fé. Ele era pequeno em corpo, mas ao vê-Lo entenderam que Ele era grande em sua divindade. Figurativamente falando, isto denota a sinagoga, o povo judeu, que, cansado da longa espera da Encarnação, estava pronto com seus braços (suas ações piedosas) e suas vozes (sua fé não fingida) para exaltá-Lo e engrandecê-Lo tão logo Ele viesse”.

E São Efraim, o sírio, descreveu o encontro desta maneira:

  • “O Filho veio ao servo não para ser apresentado pelo servo, mas para que, através do Filho, o servo pudesse apresentar ao seu Senhor o sacerdócio e a profecia que haviam sido confiadas à sua guarda. A profecia e o sacerdócio, dados por meio de Moisés, foram transmitidos e repousavam em Simeão”.

Nesta visão, o sacerdote idoso e os profetas representam a Antiga Aliança, enquanto Cristo encarna a Nova. Isso captura tanto a continuidade do Novo a partir do Antigo quanto a radical novidade. Algo emocionante e novo estava acontecendo em Israel, mas isto não era um repúdio ao que havia acontecido antes. Há, sim, uma espécie de “passagem da tocha” entre o Antigo e o Novo.

Evidentemente, vemos o mesmo nos respectivos ministérios de João Batista e Jesus. Em João 3,25-30, João Batista louva aqueles que o deixam seguir a Cristo:

  • “Houve então uma questão entre os discípulos de João e os judeus acerca da purificação. E foram ter com João, e disseram-lhe: ‘Rabi, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tu deste testemunho, ei-lo batizando, e todos vão ter com ele’. João respondeu, e disse: ‘O homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu. Vós mesmos me sois testemunhas de que disse: ‘Eu não sou o Cristo, mas sou enviado adiante dele’. Aquele que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se muito com a voz do esposo. Assim, pois, já este meu gozo está cumprido. É necessário que ele cresça e que eu diminua'” (João 3,25-30).

No entanto, Cristo parece esperar até que o ministério público de João tenha chegado ao fim antes de iniciar o seu (Mateus 4: 12-17):

  • “Jesus, porém, ouvindo que João estava preso, voltou para a Galileia. E, deixando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima, nos confins de Zebulom e Naftali, para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías, que diz: ‘A terra de Zebulom, e a terra de Naftali, junto ao caminho do mar, além do Jordão; a Galileia das nações: o povo, que estava assentado em trevas, viu uma grande luz; aos que estavam assentados na região e sombra da morte, a luz raiou’. Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: ‘Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus'” (Mateus 4,12-17).

Essa visão não deixa espaço para o intervalo que os “400 anos de silêncio” imaginam. Há testemunhos contínuos com os profetas da Antiga Aliança, incluindo João Batista.

E isto acaba sendo uma questão importante, porque afeta a maneira como enxergamos os Deuterocanônicos, o conjunto de livros disputados (que católicos e ortodoxos acreditam ser canônicos, mas que os protestantes rejeitam): se você enxerga os quatro séculos (mais ou menos) anteriores a Cristo como uma época em que Deus se calou, é claro que você rejeitará a canonicidade desses livros; mas se você crê que Deus ainda estava revelando o Seu plano de salvação durante esse tempo, o argumento para a aceitação dos Deuterocanônicos resta bastante forte.

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NOTA DO TRADUTOR
[*] Leia-se, em complemento a este artigo, “A profecia sobre Jesus Cristo que os protestantes desconhecem graças à sua Bíblia Incompleta“.

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