Por Alessandro Lima

Jesus era Deus?

Que Jesus era homem, isto é, nascido de mulher como chegou a afirmar também S. Paulo (cf. Gl 4,4) acredito que ninguém discorde.

A Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo é expressa na Sagrada Escritura em diversos lugares. Tomemos primeiro o Evangelho de S. João:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada foi feito do que foi feito. […] E o Verbo se fez carne e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória, glória como de filho Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1,1-14).

Aqui S. João escreve com toda clareza que o Verbo, isto é, Jesus, encarnou-se e habitou entre nós e que este mesmo Verbo estava com Deus e era Deus. Aqui é expressa a eternidade de Cristo, sua preexistência antes do tempo e das coisas criadas, e estas só vieram a ser por meio Dele.

O Verbo estava junto com Deus não como algo estranho a Ele e junto Dele, mas Nele, em comunidade de vida e amor.  Com efeito, o próprio Cristo também o confirma ao dizer: “Saí do Pai e vim ao mundo: agora deixo o mundo e volto ao Pai” (Jo 16,28).

Jesus em algumas oportunidades também fala da sua preexistência na Eternidade. Em conversa com os Judeus disse: “Em verdade, em verdade vos asseguro: antes que Abraão existisse, Eu Sou.” (Jo 8,58). João Batista o confessa: “Este era aquele de quem eu disse: o que virá depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim” (Jo 1,15).

Paulo em diversas oportunidades escreveu sobre a Divindade de Jesus:

Cristo [que descende dos Patriarcas], segundo a carne, o qual está sobre todas as coisas. Deus bendito por todos os séculos. Amém” (Rm 9,5).

Tende em vós o mesmo sentimento que Jesus Cristo teve; Ele justamente, porque era igual a Deus, não considerou esta igualdade como usurpação, mas aniquilou-se tomando aspecto de servo, tornando-se semelhante aos homens, e sendo reconhecido por condição como homem” (Fil 2,6-7).

O trecho acima das Carta aos Filipenses possui um grande paralelo com o prólogo do Evangelho de S. João, pois confessa a Divindade do Cristo, Verbo de Deus, igual a Deus, portanto Deus mesmo e não obstante tudo isso, encarnou-se e fez-se homem.  Ainda:

Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus outrora aos nossos pais pelos profetas; mas ultimamente falou-nos por seu Filho, que constituiu herdeiro de tudo, por quem igualmente criou o mundo” (Hb 1,1-2).

Mais um paralelo do texto Paulinho com o Evangelho Joanino está em que todas as coisas foram feitas por meio de Cristo. Lá, S. João diz que “Todas as coisas foram feitas por ele [Jesus] e sem ele nada foi feito” (cf. Jo 1,3) e aqui S. Paulo diz que Jesus “igualmente criou o mundo” (cf. Hb 1,2). Ora, lemos no Gênesis que a criação é obra de Deus (cf. Gn 1,1-28) e se todas as coisas foram feias por meio de Jesus e sem Ele nada foi feito, logo Jesus é Deus.

Ainda na esteira de S. Paulo:

Porque a graça de Deus, fonte de salvação, manifestou-se para todos os homens. Ensina-nos ela a renunciar a impureza e as concupiscências mundanas, para viver no século presente com toda sobriedade, justiça e piedade, na expectativa da nossa esperança feliz e da manifestação gloriosa do grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tit 2,11-13).

Os testemunhos bíblicos acima provam não só a Divindade do Cristo, mas a sua distinção da Pessoa do Pai.

As Testemunhas de Jeová, no entanto recusam a divindade do Filho por causa das seguintes palavras de Cristo aos Apóstolos: “Eu vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu” (Jo 14,18). Ora, Jesus estava na terra como homem, esvaziado como disse S. Paulo de Si mesmo (cf. Fil 2,7), mas deveria voltar para a Eternidade, onde está o Pai. É neste sentido, meramente humano que o Pai é maior que o Filho. A Sagrada Escritura não pode se contradizer e nem se pode tomar uma exceção como regra. Da mesma forma S. Paulo explica que o Filho era menor que os Anjos (cf. Hb 2,7), mas isto segundo a sua humanidade. E em outro lugar, segundo a sua divindade o coloca acima deles (cf. Hb 1,5-14).

Do mesmo modo, o próprio Cristo se define como Senhor de Davi e Filho de Davi quando diz:

Que vos parece a respeito do Cristo? De quem é filho? Responderam-lhe: de Davi. E Jesus lhes respondeu e disse: Como então Davi, sob inspiração, o chama Senhor, dizendo: ‘Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita’ [Sl 109,1]” (Mt 22,42-44).

Aqui Jesus refere-se à profecia do Rei Davi, onde este confessa que o Messias é seu Senhor. Mas só Deus é Senhor! Então como poderia o Messias ser Deus e filho (descendente) de Davi? Ora, Deus segundo a sua natureza divina, filho segundo sua natureza humana!

O erro das Testemunhas de Jeová não é original, mas retomado da antiga doutrina de Ário, e que por ser tão contrária à doutrina recebida dos Santos Apóstolos foi combatida e banida pelos primeiros cristãos como heresia: a heresia ariana [1].

 

Maria é Mãe de Deus?

Bem, sendo a Pessoa de Jesus divina e humana, isto é, uma única pessoa, porém dotada de duas naturezas distintas, daí decorre ser Maria Santíssima Mãe de Deus. Não mãe da divindade, não mãe do Pai ou do Espírito Santo, não Mãe da Divindade de Cristo, mas Mãe do homem Jesus que também é Deus.

Lemos no Profeta Isaías:

Portanto, o mesmo Senhor vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel [Deus conosco].” (Is 7,14).

Claramente o Profeta declara que o filho da virgem será divino, portanto, a maternidade da Virgem também é divina, o que a faz ser Mãe de Deus, pois é mãe do divino filho de Deus. Ela é mãe do homem Jesus Cristo que é também Deus.

Cheia do Espírito Santo, Izabel saudou Maria dizendo: “Donde a mim esta dita de que a mãe do meu Senhor venha ter comigo“? (Lc 1,43). Ora, Mãe de meu Senhor quer dizer Mãe do meu Deus, portanto, Mãe de Deus.

Alguém poderia dizer que Jesus Ressuscitado não tem o mesmo corpo que antes de ter sido crucificado, logo Maria não é Mãe de Jesus, pois Ele depois de ressuscitado voltou a ser de natureza inteiramente divina. Esse é o parecer das Testemunhas de Jeová que repete o antigo erro dos gnósticos cristãos. Para eles a matéria é essencialmente ruim, pois foi criada por um deus ruim, chamado demiurgo, que visa – segundo eles – escravizar as criaturas de Deus no mundo material. Logo, eles não acreditavam na encarnação do Verbo e consequentemente nem na sua ressurreição no corpo material. Santo Ireneu de Lião (Séc II) escreveu uma extensa obra intitulada “Contra as Heresias”[2] onde combate brilhantemente esta doutrina estranha àquela recebida dos Santos Apóstolos. Esta obra é dividia em 5 livros e no último ele faz uma defesa da carne criada por Deus e dada às criaturas, especialmente aos homens tratando de Adão criado na carne e ser perfeito, fala do Profeta Elias que foi elevado aos céus em sua carne (figura do Cristo ressuscitado?) e outros exemplos até chegar à encarnação e ressurreição de Cristo.

Negar que Cristo ressuscitou em seu corpo material é negar a sua encarnação e a redenção do gênero humano. Pois se Cristo não ressuscitou na carne, não devolveu à humanidade a sua dignidade perdida. No entanto, Nosso Senhor adotou para Si a nossa natureza frágil para elevá-la, para vencer nela a morte.

Cristo ressuscita como o primeiro dentre aqueles que irão ressuscitar (cf. Col 1,18) e todos ressuscitam em seus corpos:

Assim será com a ressurreição dos mortos. O corpo que é semeado é perecível e ressuscita imperecível; Se há corpo natural, há também corpo espiritual; é semeado em desonra e ressuscita em glória; é semeado em fraqueza e ressuscita em poder; é semeado um corpo natural e ressuscita um corpo espiritual.” (1 Cor 15,42-44)

Com a expressão “corpo espiritual” S. Paulo quer dizer “corpo glorificado”, “corpo que não mais sofrerá a morte ou doença ou velhice”, pois um espírito não tem corpo. Com efeito, Jesus mesmo depois de ressuscitado podia ser tocado (cf. Jo 20,27) e podia segurar coisas (cf. Lc 24,30).

Logo, a Ressurreição do Cristo não aniquilou a Sua natureza humana, mas a tornou ainda mais excelente, assim como a Fé não anula a razão, mas a eleva, do mesmo modo a Graça não anula a natureza mas a conduz à perfeição!

Desta forma, assim como recebemos a natureza humana de nossas mães (e pais) e mesmo depois da ressurreição continuaremos sendo seus filhos, o mesmo ocorre com Cristo e sua Santa Mãe, onde esta mesmo depois da ressurreição do seu Filho Divino, continua sendo a Mãe do Emanuel (cf. Is 7,4), a Mãe do Senhor (cf. Lc 1,43), enfim Mãe de Deus.

 

NOTAS

[1] Recomendamos o livro “História das Heresias” de Roque Frangiotti, Ed. Paulus.

[2] Disponível em português na Coleção Patrística Vol. 4. Ed. Paulus.

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